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Investimentos

CDB, LCI e LCA: qual rende mais e quando cada um compensa

O "% do CDI" do folheto engana: o que decide e o liquido depois do IR. A formula de uma linha que diz quando a LCI isenta vence o CDB — e quando nao vence.

Conteúdo educativo, sem recomendação personalizada de investimento. Indicadores e taxas variam ao longo do tempo; produtos citados são exemplos para explicar mecânica, nunca indicação de compra. Regras tributárias e de garantia refletem a legislação vigente na data de leitura — confirme antes de decidir. Consulte um profissional habilitado antes de decisões patrimoniais.

O “% do CDI” no folheto é a pergunta errada — o que decide é o que sobra depois do IR

Você abre o app da corretora e três produtos de renda fixa disputam o seu dinheiro com nomes quase iguais: CDB, LCI, LCA. Os números na tela não batem — um oferece 110% do CDI, outro 95%, o terceiro 92%. Um diz “isento de IR”, os outros não. E a sua cabeça faz a conta errada: presume que o percentual maior rende mais.

Não rende. O percentual estampado é bruto. Sobre o CDB cai imposto de renda — de 22,5% a 15%, dependendo do prazo. Sobre a LCI e a LCA, não cai nada. Então o “110% do CDI” do CDB pode virar 88% líquido, e a “LCI de 95%” — que parecia menor — passa na frente. A comparação honesta só existe depois de três números: o percentual oferecido, o prazo até você precisar do dinheiro, e a alíquota de IR que o CDB pagaria nesse prazo. Sem esses três, o “mais alto” da tela quase nunca é o “mais alto” do bolso.

Este guia destrincha a matemática real — não a de folheto. A boa notícia: cabe numa multiplicação por linha, e depois dela a escolha certa fica óbvia.

A regra de bolso que resolve 90% dos casos. Uma LCI ou LCA isenta empata com um CDB cuja taxa bruta seja a taxa da LCx dividida por (1 menos a alíquota de IR). Em prazo de 2+ anos (IR de 15%), isso significa: uma LCx isenta a 85% do CDI rende o mesmo, líquido, que um CDB a 100% do CDI. Tudo acima de 85% no longo prazo já bate o CDB do banção. Guarde essa: ela é o artigo inteiro em uma frase.

Resposta direta (TL;DR)

Sua situaçãoVencedor típicoPor quê
Reserva de emergência (precisa do dinheiro em dias)Nenhum dos trêsLCI e LCA têm carência mínima de 6 meses; CDB de banco médio prende o dinheiro. Use CDB de liquidez diária a 100% do CDI ou Tesouro Selic
Sobra de R$ 5–50 mil para 12 mesesDepende do percentualLCI/LCA a 90%+ do CDI bate CDB a 100% do CDI em 12 meses — o IR de 17,5% derruba o CDB para 82,5% líquido
Sobra para deixar 2–5 anos sem mexerLCI/LCA na maioria dos casosAcima de 720 dias o IR do CDB cai para 15%, mas a isenção das LCx ainda vence quando o percentual é maior ou igual a 85% do CDI
Patrimônio acumulado, R$ 100 mil+Mix entre os trêsDiversificar emissores dentro do teto do FGC é mais importante que escolher um único campeão
Fluxo de caixa irregularCDB pós-fixado curtoA carência da LCI/LCA é incompatível com chamada inesperada de caixa

Se você quer só o atalho, ele está aí. Se quer entender de onde vêm os números — e por que o “vencedor” muda quando o percentual sobe ou cai meio ponto — siga adiante. A parte que interessa é a mecânica; ela transfere para qualquer oferta que você encontrar, hoje ou daqui a três anos.

As três variáveis que você precisa fixar antes de qualquer conta

Não existe “qual rende mais” no abstrato. A comparação só ganha sentido depois de travar três variáveis. Duas são suas (quanto tempo o dinheiro pode ficar parado, e o percentual do CDI que a oferta traz); a terceira é lei (a tabela regressiva do IR). É a interação dessas três que decide — não o número grande na tela.

Por que o percentual sozinho engana. O CDI vigente é hoje 14,15% a.a. — mas esse número muda a cada reunião do Copom. Por isso a comparação certa nunca é em pontos de juros ao ano; é em percentual do CDI, já líquido de imposto. A LCx isenta já entrega o percentual dela líquido. O CDB não: você precisa descontar o IR antes de comparar. Comparar o bruto de um com o líquido do outro é o erro nº 1 do varejo.

Variável 1 — o prazo (é ele que define o seu IR)

Todo produto de renda fixa não isento — CDB, Tesouro Direto, fundo DI — paga IR na fonte pela tabela regressiva da Receita Federal. Quanto mais tempo o dinheiro fica aplicado, menor a mordida. Essa tabela é o motor de tudo o que vem a seguir:

Prazo da aplicaçãoAlíquota de IR sobre o rendimentoO que sobra de cada R$ 100 de juros
Até 180 dias22,5%R$ 77,50
De 181 a 360 dias20%R$ 80,00
De 361 a 720 dias17,5%R$ 82,50
Acima de 720 dias15%R$ 85,00

Repare no que essa tabela faz com um CDB de 100% do CDI. Resgatado em seis meses, ele entrega só 77,5% do CDI líquido. Deixado dois anos, sobe para 85%. O mesmo produto, a mesma taxa — só o tempo mudou. E note o degrau final: a LCI/LCA isenta não tem essa penalidade em nenhum prazo. É por isso que a isenção pesa mais no curto prazo, onde o IR do CDB ainda é alto.

A isenção vale mais quanto mais cedo você precisar do dinheiro. Parece contraintuitivo, mas é o oposto do que o senso comum diz. Muita gente acha que “isento só compensa no longo prazo”. É ao contrário: no longo prazo o IR do CDB cai para 15% e a vantagem da LCx encolhe; no curto, o IR é 20-22,5% e a isenção abre a maior distância. O limite prático é a carência — a LCx não te deixa sacar antes de 6 meses de qualquer jeito.

Variável 2 — o percentual do CDI (e o mercado onde ele mora)

O mesmo produto sai com percentuais diferentes conforme onde você compra. Não é sorte: é a estrutura de captação de cada casa. Vale saber onde procurar cada faixa:

Onde você compraCDB pós-fixado típicoLCI/LCA típicaObservação
App de banco digital (liquidez diária)~100% do CDIraramente oferecemFeito para a reserva, não para maximizar
Banco médio com captação direta105–115% do CDI90–98% do CDIPrazo fechado; percentuais altos saem em janelas específicas
Corretora (vitrine de vários emissores)varia por emissor/prazo90–98% do CDIOnde se pega a melhor oferta da semana
Banco tradicional (Itaú, Bradesco, BB…)85–95% do CDI80–88% do CDITaxas mais magras; vantagem é já ter conta

Os percentuais acima são ilustrativos e mudam de semana para semana. O que não muda é o padrão: banco menor paga mais porque precisa captar; banco grande paga menos porque não depende de você. O FGC existe justamente para você conseguir aproveitar o prêmio do banco menor sem carregar o risco dele — voltaremos a isso.

Variável 3 — a fórmula que junta tudo

Esta é a única aritmética do artigo, e é uma multiplicação:

LCI/LCA equivalente = taxa do CDB × (1 − alíquota de IR). Em palavras: para saber quanto um CDB rende “como se fosse isento”, multiplique a taxa dele pelo que sobra depois do imposto. Um CDB de 100% do CDI em prazo de 2+ anos (IR 15%) equivale a uma LCx de 85% isenta. Um CDB de 110% no mesmo prazo equivale a 93,5% isento. É essa conta — e só ela — que decide “qual rende mais líquido”.

Rendimento líquido de um CDB de 100% do CDI conforme o prazo, contra a LCI/LCA isenta de 85% do CDI. O CDB sobe em degraus com a queda do IR — 77,5% até 180 dias, 80% até 360, 82,5% até 720 e 85% acima de 720 dias — e só empata com a LCx isenta depois de 720 dias. Antes disso, a isenção fica sempre à frente. O que sobra de um CDB 100% do CDI, por prazo % do CDI já líquido de IR, contra uma LCI/LCA isenta de 85% — valores ilustrativos 85% 80% 75% LCI/LCA isenta — 85% do CDI, em qualquer prazo 77,5% 80% 82,5% empatam até 180 d IR 22,5% 181–360 d IR 20% 361–720 d IR 17,5% +720 d IR 15% A isenção da LCx abre a maior vantagem no curto prazo, onde o IR do CDB é mais pesado.

Produto a produto: o que é cada um e o que olhar antes de comprar

CDB — Certificado de Depósito Bancário

É a forma mais antiga e direta de o banco captar dinheiro de você. Você empresta ao banco; ele usa para irrigar a carteira de crédito (cartão, financiamento, capital de giro). Em troca, paga uma taxa que pode ser pós-fixada (X% do CDI), prefixada (X% ao ano fechado) ou híbrida (IPCA + Y%).

Carência: varia muito. Há CDBs de liquidez diária (resgate a qualquer momento, comuns em apps de banco digital) e CDBs de prazo fechado (30 dias a 6 anos, comuns em corretoras e bancos médios). Tributação: IR regressivo na fonte, mais IOF nos primeiros 30 dias. Garantia: FGC. O que olhar antes de comprar: a taxa em percentual do CDI (não em ao ano), o prazo de carência e o de vencimento — que não são a mesma coisa —, o emissor (rating de crédito) e o quanto você já tem naquela instituição para não estourar o teto do FGC.

LCI — Letra de Crédito Imobiliário

Título emitido por bancos para captar recursos destinados ao crédito imobiliário. Há um lastro real do outro lado — uma carteira de financiamentos habitacionais — e é ele que justifica o benefício fiscal: a LCI é isenta de IR para pessoa física. Foi criada para baratear o crédito imobiliário e, de quebra, subsidia quem investe nela.

Carência: mínima legal de 6 meses para LCI pós-fixada; mais longa quando atrelada a índice de preços. Tributação: zero IR sobre o rendimento para pessoa física; IOF nos primeiros 30 dias, irrelevante na prática porque a carência já impede o saque antes disso. O que olhar: o percentual do CDI (que já é líquido, por ser isento), a carência e o vencimento — LCI sem saída antes do vencimento é dinheiro preso —, o emissor e o teto do FGC.

LCA — Letra de Crédito do Agronegócio

A prima da LCI: mesma estrutura, mesma isenção de IR, mesma cobertura do FGC. A única diferença é o lastro — crédito ao agronegócio em vez de imobiliário. Foi criada pelo mesmo motivo: subsidiar um setor estratégico via incentivo a quem empresta.

Para o seu bolso, LCI e LCA são quase gêmeas. Mesma isenção, mesma garantia, carências parecidas. A taxa de uma ou de outra sai um pouco melhor conforme o que o banco está captando naquela semana. Compre a que estiver mais alta no dia — não tente adivinhar tendência estrutural entre as duas, porque não há.
CaracterísticaCDBLCILCA
Imposto de rendaRegressivo (22,5% → 15%)Isento (PF)Isento (PF)
Liquidez diária existe?Sim, em alguns produtosNão (carência mín. 6 meses)Não (carência mín. 6 meses)
LastroCrédito geral do bancoCrédito imobiliárioCrédito do agronegócio
Garantia FGCSimSimSim
Percentual comparável……é bruto (desconte o IR)…já é líquido…já é líquido
FGC não duplica por produto. Um erro caro: comprar LCI e CDB do mesmo banco imaginando duas coberturas. Não. O FGC soma todos os produtos do investidor naquele emissor — CDB + LCI + LCA + poupança — dentro de um único teto por CPF por instituição. Para ampliar cobertura, você divide entre instituições diferentes, nunca entre produtos da mesma casa.

A matemática da isenção: quando 85% bate 100%

Agora que a fórmula está na mão, dá para responder à pergunta operacional que aparece na tela: tenho uma LCI a X% do CDI e um CDB a Y% do CDI, no mesmo prazo — qual rende mais líquido? Basta traduzir o CDB para “equivalente isento” e comparar com a LCx diretamente. Veja como o resultado muda com o prazo, porque é o prazo que muda o IR:

Prazo (IR do CDB)CDB 100% CDI → equivale aCDB 110% CDI → equivale aLCx precisa de… para empatar o CDB 110%
6 a 12 meses (IR 20%)80,0% isento88,0% isento88% do CDI
12 a 24 meses (IR 17,5%)82,5% isento90,75% isento~91% do CDI
2 anos ou mais (IR 15%)85,0% isento93,5% isento~94% do CDI

Leia a tabela de baixo para cima e a lógica salta. No longo prazo (IR 15%), o CDB defende melhor a taxa dele — a LCx precisa de 94% para bater um CDB de banco médio a 110%. No curto (IR 20%), a mesma LCx só precisa de 88%. A janela de superioridade da LCx é maior quanto mais curto o prazo, exatamente porque o IR do CDB é mais alto ali.

O piso que resolve o banção. Para horizonte de 2 anos ou mais, qualquer LCI/LCA acima de 85% do CDI já vence o CDB do banco grande (que costuma pagar 85–95% bruto, ou 72–81% líquido). A dúvida real só existe contra o CDB de banco médio a 110%+ — e aí a LCx precisa estar em 94%+ para ganhar. Abaixo disso, o banco médio leva.

E a liquidez diária? Aqui a LCx nem entra na disputa: não existe LCI/LCA de liquidez diária, porque a carência mínima legal proíbe. O comparável do CDB de liquidez diária é o Tesouro Selic — mesmo IR do CDB, resgate em D+1. Reserva de emergência é território desses dois, nunca de LCx.

Para rodar a equivalência com os seus próprios números, a calculadora Comparador de Renda Fixa resolve em segundos, e a de Rendimento do CDI mostra quanto cada percentual vira em reais sobre o aporte que você está pensando.

Um exemplo com números fechados: R$ 50 mil por 18 meses

Sai do abstrato. Você tem R$ 50 mil que não vai precisar por 18 meses, e a vitrine mostra duas ofertas: uma LCI a 95% do CDI e um CDB a 110% do CDI, mesmo prazo. Qual leva?

Em 18 meses, o CDB cai na faixa de IR de 17,5% (361 a 720 dias). Aplicando a fórmula: 110% × (1 − 0,175) = 90,75% do CDI líquido. A LCI, isenta, entrega os 95% cheios. A LCI vence por 4,25 pontos percentuais de CDI — e ainda economiza a papelada do IR na declaração. A escolha é a LCI, desde que o emissor esteja dentro do teto do FGC e a carência caiba nos 18 meses.

O percentual maior perdeu. O CDB estampava 110%; a LCI, 95%. Quem comparasse pelo folheto escolheria o CDB e sairia perdendo. A conta de uma linha inverteu a decisão. É esse o valor de entender a mecânica em vez de confiar no número grande: ela protege você da armadilha que o próprio marketing do produto arma.

Troque os números e refaça: se o CDB fosse 120% e o prazo 3 anos (IR 15%), daria 120% × 0,85 = 102% líquido — e aí o CDB venceria a LCI de 95%. A conclusão nunca é fixa; a conta é. Guarde a fórmula, não o veredito.

Cinco situações e a escolha que cada uma pede

1 — Ainda montando a reserva de emergência

Antes de qualquer comparação de percentual, este leitor precisa da reserva. Sem ela, toda aplicação de prazo fechado vira armadilha: basta um conserto inesperado de R$ 1.500 para forçar um resgate com prejuízo (LCx no secundário) ou IR alto (CDB curto). Escolha: 100% em CDB de liquidez diária a 100% do CDI no app do banco digital, ou Tesouro Selic via corretora. Acumular o equivalente a 6 meses de gasto antes de olhar para LCI/LCA.

2 — Reserva pronta, aportes mensais para 3+ anos

Este é o leitor para quem a LCI/LCA foi desenhada. A reserva já está separada. O dinheiro novo pode esperar 12, 24 meses sem afetar a vida. Escolha: 60–70% em LCI/LCA entre 90% e 98% do CDI, prazo 12 a 24 meses, dividida em pelo menos dois emissores para distribuir o teto do FGC. O restante em Tesouro IPCA+ longo, para proteção contra inflação.

3 — R$ 100 mil “estacionados para 1 ano”

Caso comum: entrada de imóvel daqui a 12 meses, troca de carro programada. Você sabe a data e o valor; precisa maximizar o líquido sem risco de mercado. Escolha: compare exatamente o que está na vitrine no dia. LCI a 95% por 12 meses bate CDB do banção a 100% e empata com banco médio a 110%. Não tenha medo do banco médio — o FGC paga dentro do teto.

4 — Fluxo irregular, pode precisar de R$ 30 mil em 30–90 dias

LCI e LCA estão fora: a carência de 6 meses inviabiliza, e vender no secundário antes dela custa deságio de 5 a 10% — a economia da isenção evapora. Escolha: 100% em CDB pós-fixado de liquidez diária ou D+1, ou Tesouro Selic. Perder uma fração de rentabilidade é o preço justo da liquidez para quem pode ser chamado a qualquer momento.

5 — Patrimônio de R$ 500 mil+, foco em preservar

Aqui o problema deixa de ser “qual rende mais” e vira “como diversificar dentro da renda fixa”. O teto do FGC por instituição é a principal restrição. Escolha: dividir em fatias abaixo do teto por emissor (margem para os juros correrem sem estourar), espalhadas em 3 a 5 instituições. Mix de LCI/LCA isenta (o que pode ficar parado), CDB pós-fixado com vencimentos escalonados (escada de liquidez) e Tesouro IPCA+ para o poder de compra no longo prazo. A liquidez emergencial fica fora desse mix.

ObjetivoHorizonteEscolha de partida
Reserva de emergênciaQualquer momentoCDB liquidez diária 100% CDI ou Tesouro Selic
Objetivo com data marcada6 a 24 mesesLCI/LCA se percentual compensar; senão CDB de prazo casado
Acumulação de longo prazo3 anos+LCI/LCA 90%+ do CDI + Tesouro IPCA+ para inflação
Caixa que pode ser chamadoImprevisívelCDB pós-fixado com liquidez; nunca LCx
Preservação de patrimônio altoLongo, diversificadoMix dos três, dividido entre 3–5 emissores dentro do FGC

A rede de segurança: FGC, e por que ela muda a decisão

Os três produtos são cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos. Se o banco emissor quebrar, o FGC devolve o seu dinheiro dentro do teto vigente por CPF e por instituição, com um teto global por período de anos. O caso do Banco Master, liquidado no fim de 2025, foi o teste real recente: quem estava dentro do teto foi pago, e a maior parte dos pagamentos saiu em poucas semanas.

O FGC desacopla o risco do banco da sua decisão. É por isso que “nunca ouvi falar desse banco” não é motivo, por si só, para recusar uma LCI de 96%. Dentro do teto, o risco de crédito do emissor não é seu — é do fundo. O que você faz é respeitar o limite por instituição (com margem para os juros correrem) e manter um registro simples de quanto tem em cada casa. A diversificação aqui não é para render mais; é para caber inteiro sob a garantia.

Vale registrar uma mudança recente do lado dos bancos — não do investidor. O Conselho Monetário Nacional apertou, ao longo de 2026, as regras de captação coberta pelo FGC (obrigando bancos que dependem muito dessa captação a alocar parte em títulos públicos e a contribuir mais ao fundo). O efeito colateral esperado é que algumas ofertas mais agressivas de CDB e LCI/LCA de bancos médios (110%+ do CDI) recuem com o tempo, à medida que essas instituições absorvem o novo custo. A cobertura do investidor final não muda; o que pode encolher é o prêmio na ponta. Não é motivo para correr — é motivo para não estranhar se as taxas mais gordas ficarem menos comuns.

Quatro armadilhas que continuam pegando gente

1. “LCI a 100% do CDI” com carência de 24 meses. No papel, a melhor LCI da vitrine. Na prática, é dinheiro preso por dois anos sem saída decente. Sempre cruze o percentual com o prazo de carência. A LCx só é superior se você tem certeza de que não vai precisar do dinheiro até a data.
2. “CDB de liquidez diária a 102% do CDI no banção.” A letra miúda costuma exigir aporte mínimo alto, janela horária para resgate, ou ser exclusivo para correntista de saldo elevado. Antes de migrar a reserva, leia o regulamento e teste o resgate com R$ 100. Se o app demora 24h para liberar, a “liquidez diária” não é diária.
3. O mercado secundário de LCI/LCA. Algumas corretoras prometem recomprar suas LCx antes do vencimento. O deságio real é de 5 a 10% do principal — você devolve toda a vantagem da isenção. Se há chance concreta de precisar do dinheiro antes da carência, não compre LCx. Use CDB com liquidez ou Tesouro Selic.
4. Concentração no mesmo emissor. Dinheiro em CDB do Banco X mais LCI do Banco X, cada um no teto, não dobra a cobertura: o FGC soma tudo por CPF e por instituição. Diversificar é dividir entre bancos, não entre produtos do mesmo banco.

Veredito

O preço da pergunta “CDB, LCI ou LCA?” não é o percentual estampado na tela. É a sua capacidade de deixar o dinheiro parado pelo prazo certo. Quem pode esperar 12 meses ou mais escolhe LCI/LCA acima de 90% do CDI quase sempre — a isenção mais a tabela regressiva do CDB inclinam a balança. Quem precisa de liquidez fica com CDB pós-fixado de banco digital ou Tesouro Selic, e aceita perder uma fração de rentabilidade em troca de ter o dinheiro à mão. Não há campeão universal; há a escolha certa para o seu prazo.

Existe um nicho onde o CDB de banco médio bate a LCx mesmo no longo prazo: quando o percentual passa de 115% do CDI em prazo de 2+ anos. É raro, e geralmente vem de bancos com captação mais cara — leia-se, maior risco de crédito, ainda que o FGC cubra. Se aparecer, encaixe dentro do teto por emissor e diversifique.

O que não pode acontecer é você sair daqui com a sensação de que “renda fixa é tudo igual”. Não é. Com quase 15 pontos de juros nominais em jogo por ano, a diferença entre 80% e 95% do CDI líquido sobre R$ 100 mil é a diferença entre alguns milhares de reais que ficam no seu bolso ou vão para a Receita. Esse hiato existe de propósito: o governo isenta certas carteiras (imobiliária, agronegócio) e a tabela regressiva foi desenhada para empurrar capital ao longo prazo. Aproveitar é trabalho de leitor atento — não de quem aceita a primeira oferta do app. E, como toda regra tributária, a isenção da LCI/LCA é fruto de decisão política: hoje está firme, mas é o tipo de vantagem que vale reconfirmar no momento da compra, porque já foi alvo de discussão no Congresso.

Dúvidas comuns

LCI ou LCA, qual rende mais?

No mesmo emissor e prazo, são quase idênticas. O que muda é a janela de captação de cada banco — em algumas semanas a LCI sai um pouco mais alta, em outras a LCA. Compre a melhor do dia, sem tentar identificar tendência estrutural.

LCI e LCA continuam isentas de IR em 2026?

Sim. Houve uma proposta em 2025 de tributar esses títulos, mas ela não virou lei — a isenção de imposto de renda para pessoa física segue integral. Como é fruto de decisão política e já foi objeto de debate no Congresso, é o tipo de regra que vale reconfirmar no momento da aplicação, mas hoje a isenção está vigente.

LCI tem IOF?

Sim, IOF regressivo nos primeiros 30 dias, igual ao CDB. Como a carência mínima da LCI é de 6 meses, o IOF é zero na prática — você não consegue resgatar dentro dos 30 dias mesmo querendo.

LCI/LCA pode ser resgatada antes da carência?

Não pelo banco emissor. Há mercado secundário em algumas corretoras, mas com deságio (5–10% do principal) que devolve a vantagem da isenção. Se há chance real de precisar do dinheiro, escolha CDB pós-fixado com liquidez.

O que acontece se o banco emissor quebrar?

O FGC paga dentro do teto vigente por CPF e por instituição, somando todos os produtos cobertos do investidor naquele banco (CDB + LCI + LCA + poupança + LC). Há um teto global por período de anos. O caso do Banco Master, liquidado no fim de 2025, confirmou que o mecanismo funciona para quem estava dentro do limite.

Posso ter LCI no Inter e CDB no Nubank ao mesmo tempo?

Sim. O FGC cobre cada instituição separadamente até o teto. Distribuir produtos entre bancos diferentes é exatamente a forma certa de ampliar a cobertura efetiva.

LCI ou Tesouro IPCA+, qual é melhor para 5+ anos?

Depende do prêmio do Tesouro IPCA+ no momento da compra. Se a Selic cair conforme o mercado projeta, um IPCA+ com boa taxa real contratada tende a superar uma LCI pós-fixada no longo prazo; se a Selic ficar alta por mais tempo, a LCI vence. Diversificar entre os dois é a saída honesta — você não sabe qual cenário prevalece. Veja como a Selic move a renda fixa para dimensionar.

Tenho R$ 50 mil para 18 meses: LCI 95% do CDI ou CDB 110% do CDI?

Em 18 meses o IR do CDB é 17,5%, então 110% × 0,825 = 90,75% do CDI líquido. A LCI a 95% (isenta) bate por 4,25 pontos. Vai para a LCI — desde que o emissor esteja dentro do FGC e a carência caiba nos 18 meses.

Vale comprar LCI de banco que nunca ouvi falar?

Vale, dentro do teto do FGC — que existe exatamente para desacoplar o risco do banco da decisão do investidor de varejo. Respeite o limite por instituição, com margem para os juros, e mantenha um registro simples de quanto tem em cada lugar.

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