Selic em 14,00% a.a. · Boletim Focus 2026: IPCA 4,86% Conteúdo educativo, sem recomendação personalizada de investimento ou financeira. Indicadores e produtos citados refletem a data de publicação. Consulte um profissional habilitado antes de decisões patrimoniais.
Você abre o jornal e a manchete diz “inflação fechou em 4,1% em 12 meses”. No mesmo dia, a corretora avisa que o IGP-M acumulado em 12 meses está em 6,3%. O síndico do prédio manda recado dizendo que o aluguel vai reajustar pelo IGP-M. O contracheque sobe pelo INPC. Sua NTN-B paga IPCA + 7%. Três índices, três números diferentes, três contratos seus dependendo de cada um.
Os três medem inflação. Mas medem cestas diferentes, com divulgadores diferentes, em momentos diferentes do mês. Quando o IGP-M dispara e o IPCA fica de boa — como aconteceu em 2020 e 2021 — quem tinha aluguel pelo IGP-M apanhou, e quem tinha pelo IPCA passou ileso. Não é detalhe técnico: é R$ 200, R$ 500, R$ 2.000 de diferença no fim do ano.
Este artigo destrincha os três índices oficiais que ainda mexem com a vida do trabalhador brasileiro em maio de 2026, mostra onde cada um aparece nos contratos do dia a dia e responde a única pergunta que importa: qual deles me afeta agora?
Resposta direta (TL;DR)
| Índice | Quem calcula | O que mede | Aparece principalmente em |
|---|---|---|---|
| IPCA | IBGE | Preços ao consumidor (1 a 40 sal. mín.) em 13 capitais | Meta da Selic, Tesouro IPCA+, planos de saúde, novos contratos de aluguel |
| IGP-M | FGV | 60% atacado + 30% varejo + 10% construção | Aluguéis residenciais antigos, energia elétrica, debêntures |
| INPC | IBGE | Preços ao consumidor (1 a 5 sal. mín.) em 13 capitais | Salário mínimo, dissídios, INSS, pensão alimentícia |
Se for para guardar uma frase: IPCA é a inflação oficial, IGP-M reage ao dólar e ao atacado, INPC é a inflação do trabalhador formal de baixa renda. Os três sobem e descem juntos no longo prazo, mas no curto prazo divergem o suficiente para esvaziar ou encher seu bolso.
Em maio de 2026, com a Selic em 14,00% a.a., reduzida pelo Copom em dois cortes de 0,25 ponto (19/03 e 29/04/2026) e o Boletim Focus projetando IPCA de 4,86% para o ano, entender qual índice está no seu contrato deixa de ser curiosidade e vira proteção patrimonial.
Por que existem vários índices de inflação
Inflação é a variação média dos preços de uma cesta de bens e serviços ao longo do tempo. O problema da palavra “média” é que ela esconde quem paga a conta. Um trabalhador de salário mínimo gasta 35-45% da renda em alimentação e quase nada em viagens; um executivo gasta 5% em comida e 20% em serviços. Quando o feijão dispara, o primeiro sente 10% de inflação real e o segundo, 1%. Mesmo que o número oficial diga “3,5%”, os dois têm razão sobre o próprio bolso.
O IBGE e a FGV resolveram isso medindo cestas diferentes. Cada índice é uma fotografia da inflação em um recorte específico — por faixa de renda, por região, por etapa da cadeia produtiva. O resultado: o Brasil tem mais de uma dezena de índices oficiais (IPCA, INPC, IGP-M, IGP-DI, IPC-Fipe, IGP-10, INCC, ICV-DIEESE, IPC-S etc.). Para o leitor trabalhador que paga aluguel, recebe salário e investe em renda fixa, três deles bastam — e são os que entram na maioria dos contratos.
IPCA: o índice oficial do Banco Central
O IPCA — Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo — é calculado e divulgado mensalmente pelo IBGE. Foi criado em 1980 e, desde 1999, é a referência da meta de inflação que orienta a política monetária do Banco Central. Quando o Copom mexe na Selic, o objetivo declarado é trazer o IPCA para o centro da meta — em 2026, esse centro é 3% com banda de 1,5 ponto para cima ou para baixo. Em abril, o índice estava em 4,14% acumulado em 12 meses, e o Boletim Focus projeta 4,86% para o fechamento do ano. Acima da meta, mas dentro da banda superior.
O que mede: variação de preços ao consumidor para famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos, residentes em 13 áreas geográficas — as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza, Belém, Vitória, Goiânia, Campo Grande e o Distrito Federal. A coleta é diária, em mais de 30 mil estabelecimentos. O resultado mensal sai entre o dia 9 e o dia 11 do mês seguinte.
Composição aproximada da cesta do IPCA (POF 2017-2018, vigente em 2026):
| Grupo | Peso | O que inclui |
|---|---|---|
| Habitação | ~16% | Aluguel, condomínio, energia elétrica, gás, reforma |
| Transportes | ~21% | Combustível, IPVA, passagem, aplicativos, manutenção |
| Alimentação no domicílio | ~15% | Carnes, leite, frutas, grãos, industrializados |
| Alimentação fora do domicílio | ~6% | Restaurantes, lanchonetes, delivery |
| Saúde e cuidados pessoais | ~13% | Plano de saúde, medicamentos, higiene |
| Despesas pessoais | ~10% | Serviços pessoais, turismo, esportes |
| Vestuário | ~4% | Roupas, calçados, acessórios |
| Educação | ~6% | Mensalidade escolar e faculdade, livros |
| Comunicação | ~5% | Internet, celular, TV por assinatura |
| Artigos de residência | ~4% | Móveis, eletrodomésticos |
Onde o IPCA aparece na sua vida concretamente:
- Tesouro IPCA+ (NTN-B Principal e NTN-B): rentabilidade contratada como “IPCA + X%”. Em abril/2026, os títulos de prazo intermediário pagam em torno de IPCA + 7,4% a 7,8% ao ano. Se o IPCA fechar 2026 em 4,86% conforme o Focus, um título IPCA+ 7,5% rende ~12,7% nominais.
- Reajuste de planos de saúde individuais: a ANS calcula um teto próprio (variação de custos médicos), mas o IPCA é referência paralela e aparece em planos coletivos.
- Aluguéis residenciais novos: desde 2021, novos contratos migraram majoritariamente do IGP-M para o IPCA — o trauma de 2020 ainda está no mercado.
- Reajuste de mensalidade escolar e universitária: em alguns estados, o IPCA virou o teto regulado para reajuste anual.
- Salários em acordos coletivos: muitas convenções usam IPCA como base.
- Política monetária: a Selic é definida olhando o IPCA projetado para o ano-calendário e o ano seguinte (horizonte relevante).
IGP-M: o índice do aluguel que reage ao dólar
O IGP-M — Índice Geral de Preços do Mercado — é calculado mensalmente pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e existe desde 1989. Diferente do IPCA, que mede só o consumidor final, o IGP-M mede a variação de preços em três etapas da cadeia produtiva:
- 60% — IPA (Índice de Preços ao Produtor Amplo): atacado, insumos agrícolas, indústria, matérias-primas. É aqui que o IGP-M se diferencia — e onde mora o problema.
- 30% — IPC (Índice de Preços ao Consumidor): varejo, similar ao IPCA, calculado pela própria FGV.
- 10% — INCC (Índice Nacional de Custo da Construção): materiais e mão de obra da construção civil.
A coleta do IGP-M cobre o período do dia 21 do mês anterior ao dia 20 do mês de referência — uma janela diferente do IPCA, que vai de 1º a último dia do mês. Por isso os dois índices nunca cobrem exatamente o mesmo período, e divergências de curto prazo são normais.
O IPA, com peso de 60%, é o motor da volatilidade. Como muitas commodities são precificadas em dólar (soja, milho, minério de ferro, petróleo), uma alta cambial repassa quase mecânica para o IPA — antes mesmo de chegar ao consumidor. O IGP-M é o índice mais sensível ao câmbio. Em períodos de dólar disparando, ele descola violentamente do IPCA.
O caso clássico foi 2020-2021. Veja como os dois índices se comportaram em 5 anos recentes:
| Ano | IPCA acumulado | IGP-M acumulado | Diferença | Contexto |
|---|---|---|---|---|
| 2020 | 4,52% | 23,14% | +18,6 p.p. | Pandemia, dólar de R$ 4,02 → R$ 5,20 |
| 2021 | 10,06% | 17,78% | +7,7 p.p. | Choque de commodities + dólar pressionado |
| 2022 | 5,79% | 5,45% | -0,3 p.p. | Convergência, dólar acomodado |
| 2023 | 4,62% | -3,18% | -7,8 p.p. | Deflação no atacado, queda de commodities |
| 2024 | 4,83% | 6,54% | +1,7 p.p. | Dólar pressionado de novo |
Quem tinha contrato de aluguel pelo IGP-M em 2020 e 2021 levou pancadas seguidas. Quem tinha pelo IPCA passou bem. E quem tinha pelo IGP-M em 2023 viu o aluguel cair nominalmente — o que parece bom até o proprietário usar a cláusula de “reajuste mínimo” prevista em contrato. Volatilidade nos dois sentidos.
Onde o IGP-M aparece:
- Aluguéis residenciais e comerciais antigos: contratos assinados antes de 2021 majoritariamente usam IGP-M. A Lei do Inquilinato permite qualquer indexador acordado, então a migração para IPCA depende de renegociação.
- Tarifas de energia elétrica: alguns contratos de concessão usam IGP-M ou IGP-DI no reajuste regulado pela ANEEL.
- Contratos de gás canalizado e saneamento: dependendo do estado.
- Debêntures corporativas e contratos B2B: empresas de capital aberto frequentemente emitem dívida indexada a IGP-M ou IPCA, à escolha.
- Reajuste anual de planos odontológicos coletivos.
O IGP-M cumpre a função declarada, mas seu DNA — peso 60% no atacado — torna-o péssimo para precificar custo de vida do consumidor final. O mercado de aluguel residencial entendeu isso e vem migrando.
INPC: o índice do salário e do INSS
O INPC — Índice Nacional de Preços ao Consumidor — é calculado pelo IBGE em paralelo ao IPCA, com a mesma metodologia, mas cesta diferente: mede preços para famílias com renda entre 1 e 5 salários mínimos. É o “IPCA dos pobres” — recorta a inflação que o trabalhador formal de baixa e média renda efetivamente sente.
Como a cesta dele é mais concentrada em alimentação no domicílio (peso ~24% no INPC contra ~15% no IPCA), o INPC tende a ser mais sensível ao preço da comida. Quando o arroz, o feijão ou a carne disparam, o INPC sobe mais que o IPCA. Quando esses preços ficam comportados, INPC e IPCA andam juntos.
Onde o INPC aparece:
- Reajuste anual do salário mínimo: desde 2007, a regra de reajuste do mínimo usa INPC do ano anterior + crescimento do PIB de dois anos antes. É o índice do salário mínimo de janeiro de cada ano.
- Reajuste de aposentadorias do INSS acima do piso: aposentados que ganham mais que um salário mínimo recebem reajuste pelo INPC. Quem ganha um piso, recebe pelo reajuste do mínimo (que também tem INPC dentro).
- Reajustes em acordos coletivos e dissídios: sindicatos pedem INPC + ganho real porque é o índice que reflete o trabalhador médio.
- Pensão alimentícia: quando fixada em valor com correção, o INPC é a referência mais comum nas decisões judiciais.
- Atualização de FGTS em ações trabalhistas: o STF definiu em 2024 que FGTS deve ser corrigido por IPCA, mas decisões anteriores usavam INPC.
Em abril/2026, o INPC acumulado em 12 meses está em torno de 4,1% — bem próximo do IPCA, sinal de que o preço da comida está rodando em linha com a inflação geral. Em períodos de seca ou choque agrícola, essa diferença alarga.
O quarto irmão silencioso: IGP-DI e IPC-Fipe
Por completude — e porque o leitor pode topar com eles em algum contrato — vale citar dois primos:
- IGP-DI (Disponibilidade Interna): calculado pela FGV com a mesma estrutura do IGP-M (60% atacado + 30% varejo + 10% construção), mas em janela diferente — do 1º ao último dia do mês de referência. Aparece em alguns contratos de prestação de serviços e em alguns reajustes regulatórios. Tende a ser muito próximo do IGP-M no acumulado anual.
- IPC-Fipe: calculado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP, restrito à cidade de São Paulo, mede consumidor final com renda de 1 a 20 salários mínimos. Aparece principalmente em estudos econômicos e em alguns contratos paulistas mais antigos.
Se um contrato seu cita IGP-DI ou IPC-Fipe, peça uma simulação de 5 anos comparada ao IPCA antes de assinar. A diferença raramente é a seu favor.
Como ler os três índices nos seus contratos
O ponto prático: você está lendo um contrato e topa com a cláusula “reajuste anual pelo IGP-M”. Como saber se isso é bom ou ruim para você?
Depende da posição que você ocupa no contrato — pagador ou recebedor — e da expectativa do índice no horizonte do contrato. Em geral, vale a regra:
| Sua posição | Indexador que joga a seu favor (em geral) | Por quê |
|---|---|---|
| Inquilino (paga aluguel) | IPCA | Menos sensível a choques cambiais, evita tranco isolado de um ano |
| Proprietário (recebe aluguel) | IGP-M (ano de dólar disparando) ou IPCA (default seguro) | Trade-off entre upside e estabilidade |
| Trabalhador formal (recebe salário) | INPC + ganho real | Reflete a inflação da sua cesta |
| Aposentado INSS acima do piso | INPC (regra atual) | Não é escolha, é regra — saber para verificar se foi aplicada |
| Investidor de longo prazo | IPCA via NTN-B | Liga sua rentabilidade real ao índice oficial da meta |
| Devedor de financiamento imobiliário | TR (atual) > IPCA > IGP-M | Quanto menos volátil o indexador da dívida, melhor para o devedor |
Há sutilezas. Em 2023, o IGP-M teve deflação acumulada (-3,18%). Quem tinha aluguel pelo IGP-M poderia ter visto reajuste negativo, mas a maioria dos contratos prevê reajuste mínimo zero — não cai, no máximo congela. Isso joga a vantagem assimetricamente para o proprietário: ele captura todos os anos de IGP-M alto e zero os anos de IGP-M baixo. Em renegociação de contrato antigo, o inquilino tem aí um argumento legítimo para migrar para IPCA.
Cinco perfis e suas escolhas
1. trabalhador iniciante alugando o primeiro apartamento
Se for assinar contrato novo, exija IPCA. Se o proprietário insistir em IGP-M, peça desconto na entrada ou cláusula de cap (teto de reajuste) — algo como “reajuste anual pelo IGP-M, limitado ao IPCA + 3 pontos”. Vale como contraproposta. Se for impossível, considere outro imóvel.
2. trabalhador estabelecido com aluguel antigo (assinado pré-2021)
Provavelmente está em IGP-M. Se o IGP-M acumulado nos últimos 12 meses está acima do IPCA por uma margem grande (>2 p.p.), tente renegociar antes do aniversário do contrato. Argumento: “Quero estender o contrato por mais X anos em troca de migrar o índice para IPCA.” Proprietários sensatos preferem inquilino fiel a um pico de reajuste pontual.
3. Investidor montando carteira para 2030+
Tesouro IPCA+ é o instrumento que liga sua rentabilidade real à inflação oficial. Em abril/2026, com NTN-B 2035 pagando ~IPCA + 7,5%, você trava poder de compra +7,5% a.a. real por uma década. É a ferramenta mais limpa de proteção de longo prazo.
4. Aposentado vivendo do INSS
Confira anualmente em janeiro se o reajuste aplicado pelo INSS bateu com o INPC do ano anterior. Erros existem. Acima do piso, a correção é INPC integral. No piso, é o reajuste do salário mínimo (INPC + crescimento do PIB de dois anos antes).
5. Pequeno empresário com contrato comercial em IGP-M
Renegocie. Aluguel comercial em IGP-M é uma bomba-relógio em ano de câmbio pressionado. A pandemia provou. Migrar para IPCA + cap é caminho honesto para ambos os lados — proprietário tem previsibilidade, inquilino dorme.
Quatro armadilhas comuns ao ler contratos
1. “IGP-M ou IPCA, o que for maior” — cláusula desonesta. O proprietário captura sempre o pico, e o inquilino sempre paga o pior cenário. Recuse.
2. “Reajuste anual pelo IGP-M acumulado nos últimos 12 meses” — atenção ao fechamento da janela. Se o aniversário do contrato cai em mês de pico do IGP-M (tipicamente após disparada cambial), você paga reajuste alto sobre toda a vida do contrato. Negocie a janela ou use o IGP-M médio do ano.
3. “Reajuste pelo INCC + IPCA” — comum em contratos de imóvel na planta. Durante a obra, INCC (custo de construção); depois do habite-se, IPCA. O INCC pode rodar em 8-12% em anos de alta da construção, bem acima do IPCA. Conta na simulação.
4. “Reajuste anual pelo CDI” — sinal vermelho em contrato de aluguel. CDI não é índice de inflação, é taxa de juros. Em 2026, o CDI roda perto de 13,90% a.a. Reajustar aluguel pelo CDI é confessar que o proprietário quer rendimento de aplicação financeira no imóvel, não preservação de poder de compra. Recuse, terminantemente.
Veredito: três índices, três funções, zero confusão
O Brasil precisa de três índices porque medem realidades distintas. IPCA é a inflação oficial — a que o Banco Central persegue, a que indexa Tesouro IPCA+, a que entra em contratos novos de aluguel. É o número que importa para política monetária e para a maioria das decisões de longo prazo.
IGP-M é o índice volátil que reage primeiro a choques cambiais e de commodities. Excelente para quem precisa antecipar pressão de custos no atacado, péssimo para indexar custo de vida residencial. Sobreviveu nos contratos de aluguel antigos por inércia, e vem perdendo espaço — corretamente.
INPC é o índice da inflação do trabalhador de baixa renda. Não é escolha em quase nenhum contrato — entra automaticamente no salário mínimo, no INSS acima do piso, em dissídios. Conhecê-lo serve para conferir se sua aposentadoria foi reajustada certo.
Em abril/2026, com IPCA rodando 4,14% em 12 meses, IGP-M acima de 6%, INPC perto de 4,1% e Selic em 14,00%, o investidor brasileiro vive o cenário raro de juro real alto. Cabe a ressalva de método, porque este número circula errado em quase todo lugar: juro real não é Selic menos inflação — a conta é uma divisão, (1 + Selic) ÷ (1 + IPCA) − 1. Com Selic de 14,00% ao ano e IPCA de 4,44% em 12 meses (Banco Central, séries SGS 432 e 433, consultadas em 27/08/2026), o juro real fica em 9,15% ao ano; a subtração devolveria 9,56, e esses quatro décimos de ponto são o erro do atalho. Aproveitar isso passa por entender o que está medindo o quê — e qual número entra em qual contrato seu.
Perguntas frequentes
Qual índice usar no novo contrato de aluguel: IPCA ou IGP-M?
Para o inquilino, IPCA é mais previsível. Para o proprietário, IPCA é razoável e evita conflito em ciclos de IGP-M alto. Em 2026, IPCA é o padrão dominante em contratos novos. Se o proprietário insistir em IGP-M, negocie cláusula de cap (limite no IPCA + X pontos).
Por que o IGP-M deu deflação em 2023 e o IPCA não?
Porque 60% do IGP-M é atacado (commodities, insumos), e 2023 foi ano de queda forte de preços globais (soja, milho, petróleo) e dólar acomodado. O atacado puxou o IGP-M para baixo. O consumidor final, medido pelo IPCA, ainda viu reajustes em serviços e mensalidades.
Tesouro IPCA+ é mesmo proteção contra inflação?
Sim — para a inflação oficial. O Tesouro IPCA+ paga a variação do IPCA mais um juro real fixo contratado. Se o IPCA fechar 2026 em 4,86% e o título paga IPCA + 7,5%, você ganha 12,72% nominais e 7,5% reais. Mas atenção: a marcação a mercado pode oscilar muito antes do vencimento — só vira garantia se levado até o fim. Detalhe completo em O que é a taxa Selic (correlação Selic-IPCA) e na Calculadora de Inflação.
Aposentado pode questionar o reajuste do INSS?
Pode. Acima do piso, o INPC anual é a regra. Se o reajuste aplicado for menor que o INPC do ano anterior, há base para questionar administrativa ou judicialmente. No piso, a regra é o salário mínimo, que tem fórmula própria (INPC + variação do PIB de dois anos antes).
O IGP-M ainda existe ou foi extinto?
Existe e segue sendo divulgado mensalmente pela FGV. Continua presente em contratos antigos, em algumas tarifas reguladas e em debêntures. O que mudou foi o uso predominante em aluguel residencial, que migrou em massa para o IPCA depois do choque de 2020-2021.
Inflação alta sempre é ruim?
Inflação previsível e moderada (perto da meta) é tolerável. Inflação alta e volátil corrói salário, distorce contratos e força o Banco Central a subir juros — encarecendo crédito e desacelerando a economia. Em 2026, a Selic em 14,00% a.a. é resposta direta a uma inflação que ficou acima da meta por sucessivos anos. O preço dessa medicina é juro alto e crescimento mais lento.
Onde encontro os números atualizados de cada índice?
IPCA e INPC: site do IBGE (ibge.gov.br), divulgação mensal entre dia 9 e 11. IGP-M: portal da FGV (portalibre.fgv.br), divulgação no fim do mês de referência. Boletim Focus com expectativas: bcb.gov.br/publicacoes/focus, todas as segundas-feiras.
Existe um único índice que sirva para tudo?
Não — e isso é uma virtude do sistema, não defeito. Cada índice mede uma coisa específica. Quem entende para que serve cada um aplica o índice certo no contrato certo. Quem foge da complexidade aceita o que vier — e geralmente paga mais caro por isso.
Próximos passos na trilha
Entender os índices é metade do caminho. A outra metade é aplicar isso aos seus contratos e investimentos. Recomendado:
- O que é a taxa Selic e como ela afeta seu dinheiro — a Selic responde ao IPCA e dita o retorno da renda fixa pós-fixada.
- Copom: como funciona a reunião que define os juros — quem decide a Selic e olhando para qual número.
- Dólar alto: como afeta seus investimentos — o canal pelo qual o IGP-M dispara primeiro.
- Tesouro, CDB, LCI e LCA: o comparativo completo de 2026 — onde Tesouro IPCA+ aparece dentro do quadro maior de renda fixa.
- Calculadora de Inflação — corrija qualquer valor pelo IPCA, IGP-M ou INPC entre dois períodos.
- Comparador de Renda Fixa — simule pré-fixado, pós-fixado e IPCA+ lado a lado.
Inflação não é destino. É variável que se mede, se contrata e se neutraliza. O trabalhador brasileiro que entende qual índice está em qual contrato dele para de levar reajuste de aluguel pelas costas e começa a escolher o lado certo da mesa.
Fontes
Os indicadores de mercado desta peça foram reabertos por mim nas séries do Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central em 24 de agosto de 2026: meta Selic em 14,00% ao ano (série 432), Selic Over e CDI em 13,90% (séries 1178 e 4389, referência de 21 de agosto), IPCA acumulado em doze meses em 4,44% (série 13522, referência de julho) e taxa média do rotativo do cartão para pessoa física em 18,46% ao mês (série 20754, referência de junho).
⭐ E vale registrar o que mudou nesta revisão, porque é uma decisão de método e não um ajuste de número: onde esta peça cravava uma taxa de mercado no texto, ela passou a usar o componente 14,00%, que lê o Banco Central no momento em que você carrega a página. ⛔ Cravar o valor de hoje só adiaria o mesmo defeito por alguns meses — a taxa cravada envelhece sozinha e ninguém percebe. Onde não existe componente equivalente, como no rotativo do cartão, o número entra com a data da apuração colada a ele.
Calcule você mesmo
Calculadora de InflaçãoVeja o poder de compra do seu dinheiro ao longo do tempo.
Conteúdo educacional, não é recomendação de compra ou venda. Rentabilidade passada não garante resultado futuro e toda aplicação envolve risco. Decisões de investimento são de responsabilidade do leitor.