Análise independente do Leitura Singular — sem preferência partidária e sem recomendação de candidato, cargo ou partido. A casa não indica em quem votar; mostra o que cada cargo decide, quanto dinheiro passa por essa decisão e o que os índices de cada estado dizem sobre o país que vai às urnas. Todos os números têm fonte primária e data de consulta no bloco final; os valores de fundo, orçamento e subsídio mudam por lei e refletem a data de publicação.
O fundo eleitoral paga R$ 31 pelo seu voto. O que o seu voto administra passa de R$ 30 mil por ano
Há duas contas que ninguém faz juntas, e é da distância entre elas que este texto vive. A primeira é a conta do que a campanha custa: o Fundo Especial de Financiamento de Campanha de 2026 tem R$ 4.961.519.777,00, pelo TSE, para 158.745.463 eleitores aptos. Dividindo um pelo outro, cada voto brasileiro custa aos cofres públicos R$ 31,25 em dinheiro de campanha — sem contar o Fundo Partidário, que pagou R$ 1,126 bilhão em 2025 para manter os partidos abertos entre uma eleição e outra, mais R$ 7 por eleitor. A segunda é a conta do que o voto decide: o Orçamento da União de 2026 prevê R$ 6,5 trilhões de despesa, dos quais R$ 1,8 trilhão é rolagem de dívida. Sobram R$ 4,7 trilhões de gasto real, e dividindo pelos mesmos 158,7 milhões de eleitores, cada voto entrega a quem for eleito a administração de cerca de R$ 29.600 por ano — e isso é só a parte federal, antes dos orçamentos dos 26 estados e do Distrito Federal, que os governadores e deputados estaduais eleitos no mesmo domingo vão gerir.
O título pergunta quanto custa o seu voto, e a resposta honesta é que ele custa pouco para quem o financia e vale muito para quem o recebe. Este texto faz quatro coisas com isso. Explica, com a Constituição na mão, o que cada um dos seis votos de 4 de outubro decide de fato — porque o cargo que menos gente sabe explicar, o de deputado estadual, é o que vota o orçamento da escola pública em que estuda a maioria das crianças do país. Mostra, com o IDHM de 2024 do PNUD e a PNAD Contínua de 2025 do IBGE, o mapa do país que vai votar: alfabetização, anos de estudo, esperança de vida, mortalidade infantil e renda, estado por estado. Traz as três medições mais sólidas que existem sobre o que acontece quando o voto é feito sem informação — e o que muda quando a informação chega. E termina com um método de cinco passos para decidir, que não diz em quem votar porque isso não é da conta desta casa.
Resposta direta
O seu voto custa R$ 31,25 em fundo eleitoral e R$ 7,09 em fundo partidário por ano, e decide quem administra R$ 29.600 de orçamento federal por eleitor, mais o orçamento do seu estado. O país que vota tem IDHM 0,805 na média, mas a distância entre o Distrito Federal (0,866) e o Maranhão (0,745) é de 0,121 ponto — o dobro de tudo o que o país avançou entre 2012 (0,744) e 2024 (0,805). Um recém-nascido em Santa Catarina tem 78,3 anos de expectativa de vida; no Amapá e em Roraima, 74,3. O adulto piauiense tem 8,7 vezes mais chance de não saber ler um bilhete do que o catarinense. E a medição de Ferraz, Finan e Moreira mostrou que, em municípios onde a auditoria da CGU achou desvio no dinheiro da educação, as crianças tiraram 0,35 desvio-padrão a menos nas provas e abandonaram mais a escola. Voto não é opinião: é o ato que escolhe quem segura o dinheiro que produz esses números.
Os números que sustentam este texto, com a data em que os abri
- 158.745.463 eleitores aptos em 4 de outubro de 2026, 1,46% a mais do que em 2022. Mulheres são 52,84%; pessoas com 60 anos ou mais passaram de 21,02% para 23,60% do eleitorado; os cinco maiores colégios (SP, MG, RJ, BA, PR) somam 52,45% dos votos (TSE, 20/07/2026).
- R$ 4.961.519.777,00 é o Fundo Eleitoral de 2026, dividido entre 30 partidos; os três maiores beneficiários concentram cerca de 40% (TSE, 03/06/2026). O Fundo Partidário distribuiu R$ 1.126.071.496,13 em 2025 a 19 legendas (TSE, 15/01/2026).
- R$ 46.366,19 é o subsídio mensal de deputado federal, senador, presidente da República e ministro de Estado desde 1º de fevereiro de 2025 (Câmara, Decreto Legislativo 172/2022).
- R$ 50 bilhões em emendas parlamentares atendidas no Orçamento de 2026, mais R$ 11,1 bilhões acolhidos na programação dos ministérios — R$ 315 por eleitor só na primeira parcela (Agência Câmara, 19/12/2025).
- 0,805 é o IDHM do Brasil em 2024, o primeiro ano na faixa “muito alto”. Ajustado à desigualdade, cai para 0,641 — uma perda de 20,4%, que devolve o país à faixa “médio” (PNUD, Painel IDHM, lido em 18/09/2026).
- 32.770.982 pessoas não votaram no primeiro turno de 2022 (20,95%). Somando 3,49 milhões de nulos e 1,96 milhão de brancos, 38,2 milhões de eleitores aptos — 24,4% — não escolheram ninguém (TSE, 04/10/2022).
Os seis votos de 4 de outubro: o que cada cargo decide de fato
A urna de 2026 pede seis escolhas, nesta ordem: deputado federal, deputado estadual (ou distrital), senador — duas vezes, porque este ano renovam-se dois terços do Senado —, governador e presidente. A ordem é a inversa da atenção que cada cargo recebe. A campanha presidencial ocupa o noticiário; o deputado estadual ocupa, quando muito, um santinho. E no entanto o ensino médio público — onde o Ideb de 2025 marca 4,3 numa escala de 10, pelo Inep — é responsabilidade dos estados: quem decide quanto vai para ele é o governador, e quem aprova ou emenda esse orçamento é a Assembleia Legislativa. O mesmo vale para a polícia militar e civil, para os hospitais estaduais e para o ICMS, que é o maior imposto do país. O cargo que quase ninguém sabe explicar é o que mais toca a vida de quem tem filho em escola pública ou depende de um hospital estadual.
| Cargo | Vagas em 2026 | Mandato | Sistema | Idade mínima | O que decide, pela Constituição | Apurado em |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Deputado federal | 513 | 4 anos | Proporcional | 21 | Faz e vota leis nacionais, aprova o Orçamento da União (art. 48, II), fiscaliza o Executivo e o Tribunal de Contas (arts. 49 e 70), autoriza processo contra o presidente (art. 51, I). Apresenta emendas ao orçamento. | 18/09/2026 · TSE 07/01/2026 e CF/88 |
| Deputado estadual / distrital | 1.035 + 24 | 4 anos | Proporcional | 21 | Vota o orçamento do estado (saúde, segurança e ensino médio), legisla sobre ICMS, IPVA, servidores e polícia estaduais, fiscaliza o governador (arts. 25 a 28, 155). | 18/09/2026 · TSE 07/01/2026 e CF/88 |
| Senador | 54 (2/3 de 81) | 8 anos | Majoritário | 35 | Revisa toda lei federal, julga o presidente por crime de responsabilidade, aprova ministros do STF, o presidente do Banco Central e embaixadores, autoriza operações de crédito e dívida dos estados (art. 52). | 18/09/2026 · TSE 07/01/2026 e CF/88 |
| Governador | 27 | 4 anos | Majoritário, com 2º turno | 30 | Chefia o Executivo estadual: rede estadual de ensino, polícias civil e militar, hospitais e rodovias estaduais, arrecadação do ICMS e do IPVA, proposta de orçamento estadual. | 18/09/2026 · TSE 07/01/2026 e CF/88 |
| Presidente | 1 | 4 anos | Majoritário, com 2º turno | 35 | Chefia o Executivo federal: propõe o Orçamento, sanciona ou veta leis, nomeia ministros e a diretoria do Banco Central, comanda política econômica, externa e de defesa (art. 84). | 18/09/2026 · TSE 07/01/2026 e CF/88 |
Uma observação sobre o sistema, porque ele muda o efeito do voto. Senador, governador e presidente são eleitos pelo sistema majoritário: quem tem mais votos ganha, e o seu voto vai inteiro para o nome que você escolheu. Deputado federal e estadual são eleitos pelo sistema proporcional: as cadeiras são divididas entre partidos e federações conforme o total de votos de cada um, e preenchidas pelos mais votados dentro de cada legenda. Na prática, o voto num deputado é também um voto na lista do partido dele — pode ajudar a eleger outro nome da mesma sigla que você nunca ouviu falar. Não é um defeito escondido; é a regra, e vale a pena saber dela antes de digitar cinco números.
Há um detalhe institucional que costuma escapar: cada senador é eleito com dois suplentes, que não aparecem na urna e assumem se o titular sair para um ministério, uma secretaria ou uma licença. Em oito anos de mandato, isso acontece com frequência. A chapa que você vota tem três nomes, e o TSE publica todos eles no DivulgaCand.
Quanto custa, em três contas: a campanha, o cargo e o que ele administra
A pergunta do título tem três respostas, e cada uma mede uma coisa diferente. A conta da campanha é a mais visível e a menor. A conta do cargo é o que o eleito recebe. A conta do que ele administra é a única que realmente importa, e é a que nunca aparece no santinho.
| Conta | Valor total | Por eleitor apto (158.745.463) | O que mede | Apurado em |
|---|---|---|---|---|
| Fundo Eleitoral 2026 (FEFC) | R$ 4.961.519.777 | R$ 31,25 | Dinheiro público de campanha, distribuído a 30 partidos: 2% em partes iguais, 35% pelos votos de 2022 para a Câmara, 48% pelas cadeiras na Câmara, 15% pelas cadeiras no Senado | 18/09/2026 · TSE, página do FEFC e notícia de 03/06/2026 |
| Fundo Partidário (2025) | R$ 1.126.071.496 | R$ 7,09 | Manutenção dos partidos fora da eleição; 19 legendas receberam, 10 ficaram fora pela cláusula de desempenho | 18/09/2026 · TSE, 15/01/2026 |
| Subsídio de parlamentar, presidente e ministro | R$ 46.366,19 por mês | — | Remuneração bruta; igual para deputado federal e senador por força do art. 49, VII, da Constituição | 18/09/2026 · Câmara, Decreto Legislativo 172/2022 |
| Emendas parlamentares na LOA 2026 | R$ 50 bilhões (+ R$ 11,1 bi na programação dos ministérios) | R$ 315 | Parcela do orçamento cuja destinação é indicada por deputados, senadores, bancadas e comissões — 7.180 emendas apresentadas | 18/09/2026 · Agência Câmara, 19/12/2025 |
| Saúde na LOA 2026 | R$ 254,9 bilhões | R$ 1.606 | Ações e serviços públicos de saúde, R$ 7,4 bilhões acima do mínimo constitucional | 18/09/2026 · Agência Câmara, 19/12/2025 |
| Orçamento da União 2026, sem rolagem de dívida | R$ 4,7 trilhões | R$ 29.607 | Despesa total de R$ 6,5 trilhões menos R$ 1,8 trilhão de refinanciamento; é o que os eleitos federais administram por ano | 18/09/2026 · Agência Câmara, 19/12/2025 — divisão é conta minha |
As divisões por eleitor são contas minhas sobre os totais oficiais, e servem para dar escala, não para sugerir que cada pessoa “recebe” esse valor. O que elas mostram é a assimetria: o Estado gasta R$ 38 por ano para que você escolha, e entrega ao escolhido a gestão de quase R$ 30 mil por ano em seu nome, só no plano federal. A relação entre o custo de decidir e o tamanho do que se decide é de quase oitocentas vezes. Não conheço outra decisão financeira na vida de uma pessoa com essa proporção — nem a compra de um imóvel, em que a entrada costuma ser 20% do valor, chega perto.
De onde vem o dinheiro do fundo eleitoral
O FEFC foi criado pela Lei 13.487/2017, depois que o Supremo proibiu doações de empresas a campanhas, em 2015 (ADI 4.650). É dotação orçamentária da União em ano eleitoral — sai do mesmo Orçamento que paga saúde e educação — e é transferido pelo Tesouro ao TSE, que repassa aos diretórios nacionais. Em 2026, a União disponibilizou o valor em 1º de junho, e os partidos só sacam depois de registrar no TSE os critérios internos de distribuição entre os próprios candidatos, com cotas obrigatórias de gênero e raça. O critério de rateio entre partidos (48% pelas cadeiras na Câmara) faz com que o fundo premie quem já é grande: os três maiores beneficiários de 2026 ficaram com cerca de 40% do total. Isso é um fato sobre a regra, não sobre os partidos.
O mapa do país que vai votar: o IDHM de cada estado em 2024
O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal é a medida-síntese que o PNUD, o Ipea e a Fundação João Pinheiro calculam para o Brasil e cada unidade da Federação, combinando três dimensões: longevidade (esperança de vida ao nascer), educação (cinco indicadores de matrícula e conclusão, do ensino infantil ao fundamental completo entre adultos) e renda (renda domiciliar per capita). Em 2024, pela primeira vez, o Brasil cruzou a linha de 0,800 e entrou na faixa “muito alto”, com 0,805. O número é bom e é verdadeiro. A leitura que ele permite é menos confortável: dez unidades estão acima de 0,800 e dezessete abaixo, e as nove últimas posições são todas do Norte e do Nordeste. Entre o Distrito Federal e o Maranhão a diferença é de 0,121 ponto — o dobro dos 0,061 que o Brasil inteiro avançou em doze anos, de 0,744 em 2012 a 0,805 em 2024.
| # | UF | IDHM 2024 | Longevidade | Educação | Renda | Faixa | Apurado em |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Distrito Federal | 0,866 | 0,913 | 0,851 | 0,837 | muito alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 2 | São Paulo | 0,838 | 0,867 | 0,850 | 0,799 | muito alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 3 | Santa Catarina | 0,833 | 0,888 | 0,817 | 0,797 | muito alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 4 | Paraná | 0,822 | 0,864 | 0,815 | 0,790 | muito alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 5 | Rio de Janeiro | 0,819 | 0,844 | 0,826 | 0,789 | muito alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 6 | Rio Grande do Sul | 0,818 | 0,869 | 0,791 | 0,796 | muito alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 7 | Goiás | 0,815 | 0,863 | 0,821 | 0,763 | muito alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 8 | Mato Grosso | 0,812 | 0,845 | 0,816 | 0,776 | muito alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 9 | Minas Gerais | 0,809 | 0,875 | 0,803 | 0,754 | muito alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 10 | Espírito Santo | 0,804 | 0,870 | 0,784 | 0,763 | muito alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 11 | Tocantins | 0,797 | 0,861 | 0,801 | 0,734 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 12 | Mato Grosso do Sul | 0,797 | 0,840 | 0,786 | 0,766 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 13 | Rondônia | 0,786 | 0,850 | 0,778 | 0,734 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 14 | Roraima | 0,780 | 0,823 | 0,810 | 0,713 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 15 | Rio Grande do Norte | 0,778 | 0,881 | 0,741 | 0,720 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 16 | Ceará | 0,773 | 0,871 | 0,783 | 0,677 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 17 | Pernambuco | 0,767 | 0,842 | 0,764 | 0,702 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 18 | Amazonas | 0,767 | 0,841 | 0,788 | 0,680 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 19 | Piauí | 0,764 | 0,866 | 0,742 | 0,695 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 20 | Sergipe | 0,761 | 0,856 | 0,731 | 0,705 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 21 | Paraíba | 0,760 | 0,864 | 0,730 | 0,696 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 22 | Bahia | 0,759 | 0,847 | 0,743 | 0,694 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 23 | Amapá | 0,759 | 0,822 | 0,745 | 0,713 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 24 | Pará | 0,758 | 0,854 | 0,736 | 0,692 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 25 | Acre | 0,754 | 0,848 | 0,740 | 0,684 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 26 | Alagoas | 0,746 | 0,823 | 0,729 | 0,691 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| 27 | Maranhão | 0,745 | 0,844 | 0,746 | 0,658 | alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
| — | Brasil | 0,805 | 0,860 | 0,798 | 0,760 | muito alto | 18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024 |
Duas advertências sobre a tabela, para ela não dizer mais do que sabe. A primeira: 2024 foi o ano de maior IDHM da série em todas as unidades, o que reflete a recuperação depois da queda de 2021 (o índice nacional caiu a 0,757 na pandemia e subiu 0,048 em três anos). Um estado no fim da lista em 2024 pode ter melhorado mais, em termos absolutos, do que um no topo — e vários melhoraram. A segunda: o IDHM é média, e o PNUD publica junto o índice ajustado à desigualdade, que desconta a dispersão dentro de cada dimensão. Para o Brasil, esse ajuste tira 20,4% do índice e o leva de 0,805 para 0,641 — de “muito alto” para “médio”. O mesmo painel mostra IDHM de 0,851 para a população branca e 0,774 para a população negra em 2024. O país que vai votar tem duas faixas de desenvolvimento convivendo dentro de cada estado, não só entre eles.
Escolarização e alfabetização: quem consegue ler o que está em jogo
A PNAD Contínua de 2025, publicada pelo IBGE em junho de 2026, é a medição mais recente que existe sobre escolaridade no país. Ela diz que 4,9% dos brasileiros de 15 anos ou mais não sabem ler e escrever um bilhete simples — a menor taxa da série, e ainda assim algo perto de 8 milhões de adultos. A média esconde a amplitude: em Santa Catarina, 1,5%; no Piauí e em Alagoas, 13,1%. Nos anos médios de estudo da população de 25 anos ou mais, o Distrito Federal tem 12,2, o equivalente a ensino médio completo; Paraíba e Alagoas têm 8,6, o que corresponde a ensino fundamental incompleto. Há estados em que o adulto médio não terminou o fundamental, e é esse adulto que vai escolher quem administra a escola do filho dele.
| UF | Analfabetismo 15+ (2025) | Anos de estudo, 25+ (2025) | Ensino médio completo ou mais, 14+ (2025) | Superior completo, 14+ (2025) | Apurado em |
|---|---|---|---|---|---|
| Santa Catarina | 1,5% | 10,8 | 58,4% | 21,1% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Rio de Janeiro | 1,6% | 11,4 | 64,4% | 23,3% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| São Paulo | 1,9% | 11,2 | 64,4% | 23,3% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Distrito Federal | 2,0% | 12,2 | 70,5% | 34,0% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Rio Grande do Sul | 2,2% | 10,6 | 54,5% | 18,6% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Paraná | 3,3% | 10,3 | 56,6% | 19,9% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Roraima | 3,4% | 11,0 | 63,4% | 18,9% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Goiás | 3,5% | 10,5 | 57,6% | 18,1% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Mato Grosso | 3,5% | 10,4 | 56,4% | 17,5% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Minas Gerais | 3,8% | 10,0 | 53,0% | 16,6% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Espírito Santo | 3,8% | 10,2 | 54,1% | 18,1% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Mato Grosso do Sul | 3,9% | 10,3 | 52,8% | 19,1% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Amazonas | 4,3% | 10,4 | 58,4% | 14,1% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Amapá | 4,5% | 10,7 | 59,7% | 18,9% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Rondônia | 5,1% | 9,2 | 47,1% | 13,6% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Pará | 6,2% | 9,4 | 47,7% | 11,3% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Tocantins | 6,8% | 10,0 | 54,4% | 17,3% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Acre | 8,9% | 9,3 | 48,6% | 14,7% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Rio Grande do Norte | 9,3% | 9,4 | 49,3% | 15,4% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Bahia | 9,5% | 8,9 | 47,4% | 10,9% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Pernambuco | 10,1% | 9,3 | 50,1% | 13,9% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Sergipe | 10,3% | 9,0 | 46,1% | 12,7% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Maranhão | 10,9% | 8,8 | 47,0% | 10,3% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Ceará | 11,1% | 8,9 | 47,6% | 11,5% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Paraíba | 11,6% | 8,6 | 43,0% | 12,2% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Piauí | 13,1% | 8,7 | 45,0% | 13,2% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Alagoas | 13,1% | 8,6 | 44,8% | 11,5% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
| Brasil | 4,9% | 10,2 | 55,8% | 18,0% | 18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128) |
A leitura desta tabela pede cuidado com a causalidade, e é aqui que a casa se separa do discurso fácil. É tentador dizer que o estado com menos escolaridade “vota pior”, e isso é exatamente o que este texto não afirma, por duas razões. A primeira é que a escolaridade de hoje é o resultado de décadas de decisões anteriores — orçamento de educação de 1990, de 2000, de 2010 —, e a pessoa que não terminou o fundamental não escolheu o orçamento que faltou na infância dela. A segunda é que não há medição que sustente a frase. O que há de medido é outra coisa, e vem no próximo bloco: que a informação, quando chega ao eleitor, muda o voto dele — inclusive, e sobretudo, onde a escolaridade é menor. O problema não é o eleitor; é o que chega até ele.
Um dado do Inep completa o quadro pelo lado das crianças. O Ideb de 2025, divulgado em agosto de 2026, é o maior da série em todas as etapas: 6,3 nos anos iniciais do fundamental, 5,3 nos anos finais e 4,5 no ensino médio, considerando redes pública e privada. Só na rede pública, o ensino médio fica em 4,3. O MEC anunciou acompanhamento próximo de 442 municípios que seguem com Ideb abaixo de 4,9 nos anos iniciais — eram 1.097 em 2023 e 4.110 em 2005. É progresso real e é lento; e o ensino médio, a etapa com pior nota, é justamente a que o governador e a Assembleia Legislativa administram.
Qualidade de vida: cinco anos de vida entre um estado e outro
Se a educação mede o que o Estado fez pelas pessoas nos primeiros vinte anos, a longevidade e a renda medem o que ele faz depois. Pelas Projeções da População de 2024 do IBGE, um brasileiro nascido naquele ano tem esperança de vida de 76,6 anos. No Distrito Federal, 79,7; em Santa Catarina, 78,3; no Amapá e em Roraima, 74,3. A distância entre o primeiro e os últimos é de 5,4 anos de vida, e não há herança genética que explique isso: é saneamento, é pronto-socorro, é vacina, é estrada. A mortalidade infantil conta a mesma história em escala mais dura — 8,7 mortes por mil nascidos vivos em Santa Catarina contra 21,8 em Roraima, duas vezes e meia.
| UF | Esperança de vida ao nascer (2024) | Mortalidade infantil, por mil (2024) | Renda domiciliar per capita (2025) | Gini da renda per capita (2025) | Apurado em |
|---|---|---|---|---|---|
| Distrito Federal | 79,7 anos | 10,6 | R$ 4.401 | 0,570 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Santa Catarina | 78,3 anos | 8,7 | R$ 2.752 | 0,425 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Rio Grande do Norte | 77,8 anos | 10,9 | R$ 1.779 | 0,540 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Minas Gerais | 77,5 anos | 11,0 | R$ 2.289 | 0,473 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Ceará | 77,3 anos | 11,4 | R$ 1.379 | 0,506 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Rio Grande do Sul | 77,2 anos | 9,5 | R$ 2.772 | 0,468 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Espírito Santo | 77,2 anos | 11,2 | R$ 2.209 | 0,480 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| São Paulo | 77,0 anos | 11,0 | R$ 2.862 | 0,491 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Piauí | 77,0 anos | 14,6 | R$ 1.534 | 0,508 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Paraná | 76,8 anos | 10,5 | R$ 2.687 | 0,470 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Goiás | 76,8 anos | 12,0 | R$ 2.378 | 0,479 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Paraíba | 76,8 anos | 13,0 | R$ 1.542 | 0,507 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Tocantins | 76,7 anos | 12,5 | R$ 1.979 | 0,472 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Sergipe | 76,4 anos | 18,2 | R$ 1.688 | 0,532 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Pará | 76,3 anos | 14,6 | R$ 1.435 | 0,492 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Rondônia | 76,0 anos | 12,1 | R$ 1.970 | 0,458 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Acre | 75,9 anos | 17,1 | R$ 1.372 | 0,509 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Bahia | 75,8 anos | 14,3 | R$ 1.452 | 0,466 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Mato Grosso | 75,7 anos | 13,5 | R$ 2.297 | 0,439 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Rio de Janeiro | 75,6 anos | 12,9 | R$ 2.732 | 0,543 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Maranhão | 75,6 anos | 14,6 | R$ 1.231 | 0,491 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Pernambuco | 75,5 anos | 12,7 | R$ 1.568 | 0,520 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Amazonas | 75,5 anos | 16,6 | R$ 1.450 | 0,488 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Mato Grosso do Sul | 75,4 anos | 13,4 | R$ 2.369 | 0,457 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Alagoas | 74,4 anos | 13,6 | R$ 1.401 | 0,512 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Roraima | 74,3 anos | 21,8 | R$ 1.870 | 0,506 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Amapá | 74,3 anos | 19,2 | R$ 1.675 | 0,496 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
| Brasil | 76,6 anos | 12,2 | R$ 2.264 | 0,511 | 18/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435) |
A coluna de renda é a que mais se aproxima do bolso, e a que mais engana quando lida sozinha. A renda domiciliar per capita média do país, em 2025, foi de R$ 2.264 por mês; no Distrito Federal, R$ 4.401; no Maranhão, R$ 1.231 — 3,6 vezes menos. Mas o Gini ao lado mostra que o Distrito Federal é também a unidade mais desigual do país (0,570), enquanto Santa Catarina, com renda média quase igual à de São Paulo, tem a distribuição menos concentrada (0,425). Renda alta com Gini alto significa que a média está longe da vida de quase todo mundo. Quem lê só a primeira coluna acha que Brasília é um lugar rico; quem lê as duas entende que é um lugar onde a riqueza está muito bem guardada.
Por que estes três blocos de números estão num texto sobre voto
Porque cada linha das tabelas acima é resultado de orçamento, e orçamento é a única coisa que os seis cargos da urna têm em comum. O deputado federal e o senador votam os R$ 4,7 trilhões da União. O governador propõe e o deputado estadual aprova o orçamento do estado — onde vive o ensino médio de Ideb 4,3, o hospital regional e a polícia. O presidente sanciona ou veta. Não existe outro mecanismo pelo qual um cidadão comum decide quem segura esse dinheiro. As pesquisas de opinião não decidem; a reclamação nas redes não decide; o voto decide, e decide uma vez a cada quatro anos.
O que a escolha errada custa: três medições, não uma opinião
A frase “corrupção rouba da saúde e da educação” é dita tanto que virou ruído. A questão de método é se ela pode ser medida — e pode, porque o Brasil produziu, por acidente institucional, um dos melhores experimentos naturais do mundo sobre isso. Desde 2003, a Controladoria-Geral da União sorteia municípios para auditar o uso de recursos federais transferidos, e publica os relatórios. Sorteio é aleatório; logo, comparar municípios auditados antes e depois de uma eleição, com o mesmo nível de irregularidade encontrada, isola o efeito da informação. Três estudos usaram esse desenho, e os três são publicados em revistas com revisão por pares ou como working paper do NBER.
O primeiro é de Claudio Ferraz e Frederico Finan, no Quarterly Journal of Economics de 2008. Eles compararam prefeitos auditados antes da eleição de 2004 com prefeitos auditados depois. Onde a auditoria encontrou duas irregularidades e o relatório saiu antes da eleição, a probabilidade de reeleição do prefeito caiu sete pontos percentuais, ou 17%, em relação ao grupo de controle; com três irregularidades, quase catorze pontos. Onde havia uma rádio local para divulgar o relatório, a queda foi de onze pontos com duas irregularidades. E o resultado que mais importa para quem acha que o eleitor “não liga”: quando a auditoria não achou nada e havia rádio na cidade, a reeleição do prefeito subiu dezessete pontos. O eleitor puniu quem desviou e recompensou quem não desviou — assim que soube.
O segundo, dos mesmos autores, foi publicado na American Economic Review em 2011 e aparece como working paper do NBER de 2009. Ele mede o outro lado: o incentivo de quem governa. Prefeitos que podiam disputar a reeleição desviaram 27% menos recursos do que prefeitos em segundo mandato, sem incentivo eleitoral — e a diferença foi maior onde havia menos acesso a informação e menor chance de punição judicial. Ou seja, a simples existência de uma próxima eleição, em que o eleitor pode dizer não, reduz o desvio. O voto funciona antes de ser depositado.
O terceiro é o que fecha a conta com a vida das pessoas. Ferraz, Finan e Diana Moreira, em Corrupting Learning (NBER 18150, 2012), cruzaram as auditorias com os resultados escolares. Em municípios onde a CGU encontrou desvio nos recursos federais da educação, os alunos tiraram 0,35 desvio-padrão a menos nas provas padronizadas, tiveram taxas significativamente maiores de abandono e reprovação, e as escolas tinham menos laboratório de informática, menos material didático e menos formação de professor. A conclusão dos autores é de uma modéstia que a casa aprecia: “onde faltam recursos básicos, o dinheiro importa para o aprendizado”. Não é um número abstrato: é uma criança que aprendeu menos porque alguém votou sem olhar, e alguém desviou sabendo disso.
O que essas três medições dizem juntas — e o que não dizem
- Dizem que o eleitor informado muda o voto, inclusive em municípios pequenos e de baixa escolaridade — o efeito foi medido em 2004, antes das redes sociais, com a rádio local como canal.
- Dizem que a possibilidade de perder a eleição reduz o desvio em quem governa, em cerca de um quarto.
- Dizem que o desvio detectado no dinheiro da educação aparece na nota e no abandono das crianças, com efeito mensurável.
- Não dizem que “todo político desvia”, nem que eleitor de algum estado é pior do que o de outro. Os três estudos são sobre prefeitos e recursos federais; a extrapolação para governador, deputado ou presidente é minha, e a declaro como tal: a lógica é a mesma, o número exato não é.
O voto que não existe: 38 milhões de pessoas em 2022
No primeiro turno de 2022, 32.770.982 eleitores não compareceram — 20,95% dos aptos, pelo TSE. Somando 3.487.874 votos nulos e 1.964.779 brancos, 38,2 milhões de brasileiros com título não escolheram ninguém. Para dar escala, o candidato mais votado à Presidência naquele primeiro turno recebeu 57,3 milhões de votos, e a diferença entre o primeiro e o segundo colocado foi de 6,2 milhões. A abstenção sozinha era cinco vezes essa diferença. Isso não diz quem venceria se todos votassem — ninguém sabe, e quem diz que sabe está adivinhando. Diz que o maior bloco eleitoral do país é o que não vota, e que ele é maior do que a margem de qualquer disputa recente.
Aqui a casa faz questão de não moralizar. Quem não vota não é preguiçoso nem alienado por definição: é alguém que, na experiência pessoal dele, nunca viu o voto mudar alguma coisa, e concluiu com base na única amostra que tinha — a própria vida. Essa conclusão é racional dentro daquela história. O problema é que a amostra é pequena, e as medições acima, com milhares de municípios, dizem o contrário dela. O que este texto pode oferecer a quem se abstém não é um sermão, é um dado: o eleitor que soube do relatório da CGU mudou o voto, e o prefeito que sabia que poderia perder desviou menos. O voto não muda o mundo; muda a probabilidade de quem segura o dinheiro ser punido ou premiado. É pouco, e é a única alavanca que existe.
Um método de cinco passos para decidir — sem que eu diga em quem
Entre a propaganda e a urna existe um intervalo, e o voto é o que se faz nele. A campanha de 2026 tem R$ 4,96 bilhões de fundo, deepfakes sobre os quais o TSE fixou tese própria para 2026 e mensagens de WhatsApp que sabem o seu nome. Nada disso é novo em espécie; é novo em escala e em precisão. O método abaixo é o mesmo que a casa usa para avaliar um produto financeiro: ir à fonte primária, datar a consulta, desconfiar primeiro do próprio julgamento.
- Comece pelo cargo, não pelo nome. Antes de escolher o deputado estadual, leia o que a Assembleia do seu estado votou nos últimos quatro anos — orçamento, ICMS, segurança. Os portais das Assembleias e da Câmara publicam a votação nominal de cada projeto. Um candidato à reeleição tem histórico público; um candidato novo tem, no mínimo, a lista de bens e de processos no DivulgaCand do TSE.
- Abra o DivulgaCand. É o sistema oficial do TSE com a ficha de cada candidato: declaração de bens, situação do registro, certidões, partido e, para senador, os dois suplentes. Candidatura “sub judice” aparece lá. É a única fonte que não depende de quem está contando.
- Siga o dinheiro dele, não o discurso. A prestação de contas de campanha é pública no mesmo portal e mostra quem doou e quanto veio do fundo. Para quem já tem mandato, o Portal da Transparência e os portais da Câmara e do Senado mostram emendas indicadas e destino. O que uma pessoa fez com dinheiro público que já teve na mão diz mais do que qualquer promessa.
- Trate qualquer coisa que chegue por mensagem como não verificada. Vídeo, áudio, print de pesquisa: tudo isso hoje se fabrica em minutos, e a casa já mostrou como o golpe personalizado por IA passou a acertar o nome, o banco e o chefe da vítima — a campanha usa a mesma tecnologia. O teste é o mesmo do golpe: quem se recusa a ser confirmado por outro canal está pedindo que você não confira.
- Desconfie primeiro de si. O candidato que confirma o que você já pensava merece o dobro do escrutínio, porque é nele que o seu julgamento vai falhar sem avisar. A pergunta que a casa faz sobre tese de investimento serve aqui: o que teria de ser verdade para eu estar errado sobre esta pessoa — e eu procurei isso, ou só procurei confirmação?
O leitor vai notar que nenhum passo fala de ideologia, e isso é deliberado. Não porque ideologia não importe — importa, e é legítimo votar por ela — mas porque ela é a parte da decisão que o leitor já sabe fazer sozinho. O que este texto pode acrescentar é a parte que quase ninguém faz: conferir, na fonte, o que a pessoa fez com o dinheiro. É a diferença entre escolher um fundo de investimento pelo nome e abrir a lâmina. A casa já argumentou, sobre a Curva de Laffer e a promessa de que cortar imposto se paga sozinho, que a promessa fiscal mais sedutora costuma ser a que a medição não sustenta — e um programa de governo é, antes de tudo, uma promessa fiscal.
O que o voto NÃO resolve, para ninguém sair daqui com expectativa errada
Um voto não muda o IDHM do seu estado em quatro anos; a educação de 2024 é o orçamento de 2004. O que ele muda é quem administra o orçamento de 2027 a 2030 — e a medição diz que isso aparece, com atraso, na nota e na expectativa de vida de quem ainda não nasceu. Frankl escreveu que entre o estímulo e a resposta existe um espaço, e que nesse espaço está a liberdade. O voto é um espaço de alguns segundos numa cabine, uma vez a cada quatro anos. Cabe muito pouco nele. Cabe o suficiente.
Fontes consultadas
- TSE, Mais de 158 milhões de eleitores estão aptos a votar nas Eleições 2026, 20/07/2026 — 158.745.463 aptos; composição por sexo, idade, região e colégios eleitorais. Consultado em 18/09/2026.
- TSE, Confira quais cargos estarão em disputa nas Eleições 2026, 07/01/2026 — vagas, sistema eleitoral, idade mínima, competências. Consultado em 18/09/2026.
- TSE, Fundo Especial de Financiamento de Campanha — Eleições 2026 — R$ 4.961.519.777,00; datas de liberação por partido. E notícia de 03/06/2026 com os critérios de rateio e os maiores beneficiários. Consultados em 18/09/2026.
- TSE, Fundo Partidário: 19 partidos receberam mais de R$ 1 bilhão em 2025, 15/01/2026 — R$ 1.126.071.496,13. Consultado em 18/09/2026.
- TSE, 100% das seções totalizadas, 04/10/2022 — abstenção de 32.770.982 (20,95%), nulos e brancos. Consultado em 18/09/2026.
- PNUD Brasil, Painel IDHM (Atlas do Desenvolvimento Humano, Pnud/Ipea/FJP) — IDHM 2024 por UF e dimensões, IDHM ajustado à desigualdade (0,641), por cor e sexo. Lido no painel em 18/09/2026.
- IBGE, PNAD Contínua anual, SIDRA tabelas 7125, 7127 e 7128 (educação, atualizadas em 19/06/2026) e 7531 e 7435 (rendimento e Gini, atualizadas em 08/05/2026) — dados de 2025 por UF. Consultados em 18/09/2026.
- IBGE, Projeções da População — Revisão 2024, tabela 4 (indicadores implícitos) — esperança de vida ao nascer e mortalidade infantil por UF, ano 2024. Baixado em 18/09/2026.
- Inep, Ideb avança em todas as etapas da educação básica, 05/08/2026 — Ideb 2025 por etapa e rede; 442 municípios abaixo de 4,9. Consultado em 18/09/2026.
- Agência Câmara, Congresso Nacional aprova Orçamento de 2026 com R$ 6,5 trilhões em despesas, 19/12/2025 — despesa total, refinanciamento, saúde, emendas. Consultado em 18/09/2026.
- Câmara dos Deputados, Salário parlamentar e desconto por faltas — R$ 46.366,19 desde 1º/02/2025, Decreto Legislativo 172/2022; igualdade com o Senado pelo art. 49, VII. Consultado em 18/09/2026.
- Constituição Federal de 1988 — arts. 14 (elegibilidade), 25 a 28 (estados), 44 a 52 (Congresso), 84 (presidente), 155 (ICMS). Consultada em 18/09/2026.
- Ferraz, C.; Finan, F. Exposing Corrupt Politicians: The Effects of Brazil’s Publicly Released Audits on Electoral Outcomes. Quarterly Journal of Economics, 123(2), 2008 — 7 p.p. (17%) com duas irregularidades; 11 p.p. com rádio; +17 p.p. para quem estava limpo. Lido em 18/09/2026.
- Ferraz, C.; Finan, F. Electoral Accountability and Corruption: Evidence from the Audits of Local Governments. NBER WP 14937, 2009 (AER, 2011) — 27% menos desvio com incentivo de reeleição. Lido em 18/09/2026.
- Ferraz, C.; Finan, F.; Moreira, D. Corrupting Learning: Evidence from Missing Federal Education Funds in Brazil. NBER WP 18150, 2012 (Journal of Public Economics) — 0,35 desvio-padrão a menos; mais abandono e reprovação. Lido em 18/09/2026.
⚠ O que este texto NÃO afirma: o custo total de organizar a eleição (urnas, mesários, logística) — o TSE publica o orçamento da Justiça Eleitoral, mas não encontrei, na consulta de 18/09/2026, um valor consolidado e oficial para 2026, e por isso ele fica fora. Também não traz o Ideb de 2025 por estado: o Inep o publica em gráfico, não em tabela aberta na notícia, e a régua da casa não aceita número lido de imagem. A esperança de vida vem das Projeções 2024 do IBGE (revisão de 2024), e não das Tábuas Completas de Mortalidade, que usam outro método e podem diferir em décimos; circulam valores diferentes para o mesmo ano, e a peça declara qual usou.
Perguntas frequentes
Quanto custa o fundo eleitoral de 2026 por eleitor?
R$ 31,25. O Fundo Especial de Financiamento de Campanha de 2026 é de R$ 4.961.519.777,00, pelo TSE, e o eleitorado apto é de 158.745.463 pessoas. A divisão é conta minha sobre os dois números oficiais. Somando o Fundo Partidário de 2025 (R$ 1,126 bilhão), o custo público de campanha e manutenção partidária fica em cerca de R$ 38 por eleitor por ano.
O que faz um deputado estadual?
Vota o orçamento do estado — que paga o ensino médio público, as polícias civil e militar e os hospitais estaduais —, legisla sobre ICMS, IPVA e servidores estaduais e fiscaliza o governador, pelos artigos 25 a 28 da Constituição. É o cargo menos conhecido da urna e o que decide o dinheiro dos serviços que a maioria das pessoas usa todo dia.
Qual é o estado com maior e menor IDH do Brasil em 2024?
O Distrito Federal tem o maior IDHM (0,866) e o Maranhão o menor (0,745), pelo Painel IDHM do PNUD com dados de 2024. O Brasil está em 0,805, na faixa “muito alto” pela primeira vez; dez unidades estão acima de 0,800 e dezessete abaixo. Ajustado à desigualdade, o índice nacional cai para 0,641.
Qual é a taxa de analfabetismo no Brasil e nos estados?
4,9% das pessoas de 15 anos ou mais em 2025, pela PNAD Contínua do IBGE — a menor da série. Santa Catarina tem 1,5% e Rio de Janeiro 1,6%; Piauí e Alagoas têm 13,1%, Paraíba 11,6% e Ceará 11,1%. A média de anos de estudo dos adultos de 25 anos ou mais vai de 12,2 no Distrito Federal a 8,6 na Paraíba e em Alagoas.
Existe prova de que votar mal afeta a vida das pessoas?
Existe medição, com desenho experimental. Ferraz, Finan e Moreira (NBER, 2012) mostraram que, em municípios onde a auditoria da CGU achou desvio no dinheiro federal da educação, os alunos tiraram 0,35 desvio-padrão a menos nas provas e abandonaram mais a escola. Ferraz e Finan (QJE, 2008) mostraram que a divulgação das auditorias reduziu em 7 pontos percentuais a reeleição de prefeitos com duas irregularidades, e aumentou em 17 pontos a de quem não tinha nenhuma, onde havia rádio local.
Quantas pessoas deixaram de votar em 2022?
32.770.982 eleitores se abstiveram no primeiro turno, 20,95% dos aptos, pelo TSE. Somando 3.487.874 votos nulos e 1.964.779 brancos, 38,2 milhões de eleitores — 24,4% — não escolheram ninguém. A diferença entre o primeiro e o segundo colocado à Presidência naquele turno foi de 6,2 milhões de votos.
Como conferir um candidato antes de votar?
No DivulgaCand, do TSE, estão a declaração de bens, a situação do registro, as certidões e os suplentes de cada candidato; a prestação de contas de campanha fica no mesmo portal. Para quem já tem mandato, os portais da Câmara, do Senado e das Assembleias publicam a votação nominal de cada projeto, e o Portal da Transparência mostra as emendas indicadas. O que a pessoa fez com dinheiro público que já teve na mão é a fonte primária; o discurso é a secundária.
Veredito
O seu voto custa R$ 31 a quem o financia e vale R$ 30 mil por ano a quem o recebe, só no plano federal. Ele escolhe seis pessoas, e a menos conhecida delas — o deputado estadual — é a que vota o orçamento da escola onde o Ideb marca 4,3 e do hospital onde a mortalidade infantil varia de 8,7 a 21,8 por mil, conforme o estado. O país que vota tem IDHM de país desenvolvido na média e de país em desenvolvimento em dezessete unidades, cinco anos de vida de diferença entre o Distrito Federal e Roraima, e adultos que não terminaram o fundamental escolhendo quem administra a escola dos filhos. Nada disso é culpa do eleitor, e tudo isso passa pela mão dele uma vez a cada quatro anos. A medição diz o resto: onde a informação chegou, o voto mudou, o desvio caiu e a nota subiu. Este texto não diz em quem votar. Diz onde olhar antes de decidir, e que olhar custa menos do que não olhar — a diferença está numa criança que aprendeu 0,35 desvio-padrão a menos porque ninguém conferiu.
Conteúdo educacional e de opinião do editor. Não constitui recomendação de investimento nem orientação financeira personalizada.