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Comportamento

Quanto custa o seu voto? R$ 31 do fundo eleitoral, R$ 30 mil de orçamento por eleitor — e cinco anos de vida de diferença entre um estado e outro

Análise independente do Leitura Singular — sem preferência partidária e sem recomendação de candidato, cargo ou partido. A casa não indica em quem votar; mostra o que cada cargo decide, quanto dinheiro passa por essa decisão e o que os índices de cada estado dizem sobre o país que vai às urnas. Todos os números têm fonte primária e data de consulta no bloco final; os valores de fundo, orçamento e subsídio mudam por lei e refletem a data de publicação.

O fundo eleitoral paga R$ 31 pelo seu voto. O que o seu voto administra passa de R$ 30 mil por ano

Há duas contas que ninguém faz juntas, e é da distância entre elas que este texto vive. A primeira é a conta do que a campanha custa: o Fundo Especial de Financiamento de Campanha de 2026 tem R$ 4.961.519.777,00, pelo TSE, para 158.745.463 eleitores aptos. Dividindo um pelo outro, cada voto brasileiro custa aos cofres públicos R$ 31,25 em dinheiro de campanha — sem contar o Fundo Partidário, que pagou R$ 1,126 bilhão em 2025 para manter os partidos abertos entre uma eleição e outra, mais R$ 7 por eleitor. A segunda é a conta do que o voto decide: o Orçamento da União de 2026 prevê R$ 6,5 trilhões de despesa, dos quais R$ 1,8 trilhão é rolagem de dívida. Sobram R$ 4,7 trilhões de gasto real, e dividindo pelos mesmos 158,7 milhões de eleitores, cada voto entrega a quem for eleito a administração de cerca de R$ 29.600 por ano — e isso é só a parte federal, antes dos orçamentos dos 26 estados e do Distrito Federal, que os governadores e deputados estaduais eleitos no mesmo domingo vão gerir.

O título pergunta quanto custa o seu voto, e a resposta honesta é que ele custa pouco para quem o financia e vale muito para quem o recebe. Este texto faz quatro coisas com isso. Explica, com a Constituição na mão, o que cada um dos seis votos de 4 de outubro decide de fato — porque o cargo que menos gente sabe explicar, o de deputado estadual, é o que vota o orçamento da escola pública em que estuda a maioria das crianças do país. Mostra, com o IDHM de 2024 do PNUD e a PNAD Contínua de 2025 do IBGE, o mapa do país que vai votar: alfabetização, anos de estudo, esperança de vida, mortalidade infantil e renda, estado por estado. Traz as três medições mais sólidas que existem sobre o que acontece quando o voto é feito sem informação — e o que muda quando a informação chega. E termina com um método de cinco passos para decidir, que não diz em quem votar porque isso não é da conta desta casa.

Resposta direta

O seu voto custa R$ 31,25 em fundo eleitoral e R$ 7,09 em fundo partidário por ano, e decide quem administra R$ 29.600 de orçamento federal por eleitor, mais o orçamento do seu estado. O país que vota tem IDHM 0,805 na média, mas a distância entre o Distrito Federal (0,866) e o Maranhão (0,745) é de 0,121 ponto — o dobro de tudo o que o país avançou entre 2012 (0,744) e 2024 (0,805). Um recém-nascido em Santa Catarina tem 78,3 anos de expectativa de vida; no Amapá e em Roraima, 74,3. O adulto piauiense tem 8,7 vezes mais chance de não saber ler um bilhete do que o catarinense. E a medição de Ferraz, Finan e Moreira mostrou que, em municípios onde a auditoria da CGU achou desvio no dinheiro da educação, as crianças tiraram 0,35 desvio-padrão a menos nas provas e abandonaram mais a escola. Voto não é opinião: é o ato que escolhe quem segura o dinheiro que produz esses números.

Os números que sustentam este texto, com a data em que os abri

  • 158.745.463 eleitores aptos em 4 de outubro de 2026, 1,46% a mais do que em 2022. Mulheres são 52,84%; pessoas com 60 anos ou mais passaram de 21,02% para 23,60% do eleitorado; os cinco maiores colégios (SP, MG, RJ, BA, PR) somam 52,45% dos votos (TSE, 20/07/2026).
  • R$ 4.961.519.777,00 é o Fundo Eleitoral de 2026, dividido entre 30 partidos; os três maiores beneficiários concentram cerca de 40% (TSE, 03/06/2026). O Fundo Partidário distribuiu R$ 1.126.071.496,13 em 2025 a 19 legendas (TSE, 15/01/2026).
  • R$ 46.366,19 é o subsídio mensal de deputado federal, senador, presidente da República e ministro de Estado desde 1º de fevereiro de 2025 (Câmara, Decreto Legislativo 172/2022).
  • R$ 50 bilhões em emendas parlamentares atendidas no Orçamento de 2026, mais R$ 11,1 bilhões acolhidos na programação dos ministérios — R$ 315 por eleitor só na primeira parcela (Agência Câmara, 19/12/2025).
  • 0,805 é o IDHM do Brasil em 2024, o primeiro ano na faixa “muito alto”. Ajustado à desigualdade, cai para 0,641 — uma perda de 20,4%, que devolve o país à faixa “médio” (PNUD, Painel IDHM, lido em 18/09/2026).
  • 32.770.982 pessoas não votaram no primeiro turno de 2022 (20,95%). Somando 3,49 milhões de nulos e 1,96 milhão de brancos, 38,2 milhões de eleitores aptos — 24,4% — não escolheram ninguém (TSE, 04/10/2022).

Os seis votos de 4 de outubro: o que cada cargo decide de fato

A urna de 2026 pede seis escolhas, nesta ordem: deputado federal, deputado estadual (ou distrital), senador — duas vezes, porque este ano renovam-se dois terços do Senado —, governador e presidente. A ordem é a inversa da atenção que cada cargo recebe. A campanha presidencial ocupa o noticiário; o deputado estadual ocupa, quando muito, um santinho. E no entanto o ensino médio público — onde o Ideb de 2025 marca 4,3 numa escala de 10, pelo Inep — é responsabilidade dos estados: quem decide quanto vai para ele é o governador, e quem aprova ou emenda esse orçamento é a Assembleia Legislativa. O mesmo vale para a polícia militar e civil, para os hospitais estaduais e para o ICMS, que é o maior imposto do país. O cargo que quase ninguém sabe explicar é o que mais toca a vida de quem tem filho em escola pública ou depende de um hospital estadual.

CargoVagas em 2026MandatoSistemaIdade mínimaO que decide, pela ConstituiçãoApurado em
Deputado federal5134 anosProporcional21Faz e vota leis nacionais, aprova o Orçamento da União (art. 48, II), fiscaliza o Executivo e o Tribunal de Contas (arts. 49 e 70), autoriza processo contra o presidente (art. 51, I). Apresenta emendas ao orçamento.18/09/2026 · TSE 07/01/2026 e CF/88
Deputado estadual / distrital1.035 + 244 anosProporcional21Vota o orçamento do estado (saúde, segurança e ensino médio), legisla sobre ICMS, IPVA, servidores e polícia estaduais, fiscaliza o governador (arts. 25 a 28, 155).18/09/2026 · TSE 07/01/2026 e CF/88
Senador54 (2/3 de 81)8 anosMajoritário35Revisa toda lei federal, julga o presidente por crime de responsabilidade, aprova ministros do STF, o presidente do Banco Central e embaixadores, autoriza operações de crédito e dívida dos estados (art. 52).18/09/2026 · TSE 07/01/2026 e CF/88
Governador274 anosMajoritário, com 2º turno30Chefia o Executivo estadual: rede estadual de ensino, polícias civil e militar, hospitais e rodovias estaduais, arrecadação do ICMS e do IPVA, proposta de orçamento estadual.18/09/2026 · TSE 07/01/2026 e CF/88
Presidente14 anosMajoritário, com 2º turno35Chefia o Executivo federal: propõe o Orçamento, sanciona ou veta leis, nomeia ministros e a diretoria do Banco Central, comanda política econômica, externa e de defesa (art. 84).18/09/2026 · TSE 07/01/2026 e CF/88

Uma observação sobre o sistema, porque ele muda o efeito do voto. Senador, governador e presidente são eleitos pelo sistema majoritário: quem tem mais votos ganha, e o seu voto vai inteiro para o nome que você escolheu. Deputado federal e estadual são eleitos pelo sistema proporcional: as cadeiras são divididas entre partidos e federações conforme o total de votos de cada um, e preenchidas pelos mais votados dentro de cada legenda. Na prática, o voto num deputado é também um voto na lista do partido dele — pode ajudar a eleger outro nome da mesma sigla que você nunca ouviu falar. Não é um defeito escondido; é a regra, e vale a pena saber dela antes de digitar cinco números.

Há um detalhe institucional que costuma escapar: cada senador é eleito com dois suplentes, que não aparecem na urna e assumem se o titular sair para um ministério, uma secretaria ou uma licença. Em oito anos de mandato, isso acontece com frequência. A chapa que você vota tem três nomes, e o TSE publica todos eles no DivulgaCand.

Quanto custa, em três contas: a campanha, o cargo e o que ele administra

A pergunta do título tem três respostas, e cada uma mede uma coisa diferente. A conta da campanha é a mais visível e a menor. A conta do cargo é o que o eleito recebe. A conta do que ele administra é a única que realmente importa, e é a que nunca aparece no santinho.

ContaValor totalPor eleitor apto (158.745.463)O que medeApurado em
Fundo Eleitoral 2026 (FEFC)R$ 4.961.519.777R$ 31,25Dinheiro público de campanha, distribuído a 30 partidos: 2% em partes iguais, 35% pelos votos de 2022 para a Câmara, 48% pelas cadeiras na Câmara, 15% pelas cadeiras no Senado18/09/2026 · TSE, página do FEFC e notícia de 03/06/2026
Fundo Partidário (2025)R$ 1.126.071.496R$ 7,09Manutenção dos partidos fora da eleição; 19 legendas receberam, 10 ficaram fora pela cláusula de desempenho18/09/2026 · TSE, 15/01/2026
Subsídio de parlamentar, presidente e ministroR$ 46.366,19 por mêsRemuneração bruta; igual para deputado federal e senador por força do art. 49, VII, da Constituição18/09/2026 · Câmara, Decreto Legislativo 172/2022
Emendas parlamentares na LOA 2026R$ 50 bilhões (+ R$ 11,1 bi na programação dos ministérios)R$ 315Parcela do orçamento cuja destinação é indicada por deputados, senadores, bancadas e comissões — 7.180 emendas apresentadas18/09/2026 · Agência Câmara, 19/12/2025
Saúde na LOA 2026R$ 254,9 bilhõesR$ 1.606Ações e serviços públicos de saúde, R$ 7,4 bilhões acima do mínimo constitucional18/09/2026 · Agência Câmara, 19/12/2025
Orçamento da União 2026, sem rolagem de dívidaR$ 4,7 trilhõesR$ 29.607Despesa total de R$ 6,5 trilhões menos R$ 1,8 trilhão de refinanciamento; é o que os eleitos federais administram por ano18/09/2026 · Agência Câmara, 19/12/2025 — divisão é conta minha

As divisões por eleitor são contas minhas sobre os totais oficiais, e servem para dar escala, não para sugerir que cada pessoa “recebe” esse valor. O que elas mostram é a assimetria: o Estado gasta R$ 38 por ano para que você escolha, e entrega ao escolhido a gestão de quase R$ 30 mil por ano em seu nome, só no plano federal. A relação entre o custo de decidir e o tamanho do que se decide é de quase oitocentas vezes. Não conheço outra decisão financeira na vida de uma pessoa com essa proporção — nem a compra de um imóvel, em que a entrada costuma ser 20% do valor, chega perto.

De onde vem o dinheiro do fundo eleitoral

O FEFC foi criado pela Lei 13.487/2017, depois que o Supremo proibiu doações de empresas a campanhas, em 2015 (ADI 4.650). É dotação orçamentária da União em ano eleitoral — sai do mesmo Orçamento que paga saúde e educação — e é transferido pelo Tesouro ao TSE, que repassa aos diretórios nacionais. Em 2026, a União disponibilizou o valor em 1º de junho, e os partidos só sacam depois de registrar no TSE os critérios internos de distribuição entre os próprios candidatos, com cotas obrigatórias de gênero e raça. O critério de rateio entre partidos (48% pelas cadeiras na Câmara) faz com que o fundo premie quem já é grande: os três maiores beneficiários de 2026 ficaram com cerca de 40% do total. Isso é um fato sobre a regra, não sobre os partidos.

O mapa do país que vai votar: o IDHM de cada estado em 2024

O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal é a medida-síntese que o PNUD, o Ipea e a Fundação João Pinheiro calculam para o Brasil e cada unidade da Federação, combinando três dimensões: longevidade (esperança de vida ao nascer), educação (cinco indicadores de matrícula e conclusão, do ensino infantil ao fundamental completo entre adultos) e renda (renda domiciliar per capita). Em 2024, pela primeira vez, o Brasil cruzou a linha de 0,800 e entrou na faixa “muito alto”, com 0,805. O número é bom e é verdadeiro. A leitura que ele permite é menos confortável: dez unidades estão acima de 0,800 e dezessete abaixo, e as nove últimas posições são todas do Norte e do Nordeste. Entre o Distrito Federal e o Maranhão a diferença é de 0,121 ponto — o dobro dos 0,061 que o Brasil inteiro avançou em doze anos, de 0,744 em 2012 a 0,805 em 2024.

IDHM 2024 das 27 unidades da Federação, do Distrito Federal (0,866) ao Maranhão (0,745), com a linha do Brasil em 0,805 Barras horizontais ordenadas do maior para o menor IDHM de 2024. Dez unidades estão na faixa muito alto, acima de 0,800: Distrito Federal, São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e Espírito Santo. As outras dezessete estão na faixa alto, entre 0,745 e 0,797. A distância entre o primeiro e o último é de 0,121 ponto, e as nove últimas posições são todas do Norte e do Nordeste. Um país, dois patamares: o IDHM de cada estado em 2024 Índice de Desenvolvimento Humano Municipal por UF · PNUD, Ipea e FJP · escala recortada em 0,70–0,90 0,70 0,75 0,80 0,85 0,90 Distrito Federal 0,866 São Paulo 0,838 Santa Catarina 0,833 Paraná 0,822 Rio de Janeiro 0,819 Rio Grande do Sul 0,818 Goiás 0,815 Mato Grosso 0,812 Minas Gerais 0,809 Espírito Santo 0,804 Tocantins 0,797 Mato Grosso do Sul 0,797 Rondônia 0,786 Roraima 0,780 Rio Grande do Norte 0,778 Ceará 0,773 Pernambuco 0,767 Amazonas 0,767 Piauí 0,764 Sergipe 0,761 Paraíba 0,760 Bahia 0,759 Amapá 0,759 Pará 0,758 Acre 0,754 Alagoas 0,746 Maranhão 0,745 Brasil 0,805 Verde: faixa muito alto (≥ 0,800) · Ocre: faixa alto (0,700–0,799) · Leitura da casa em 18/09/2026
Fonte: PNUD Brasil, Painel IDHM (Atlas do Desenvolvimento Humano, Pnud/Ipea/FJP), ano 2024, lido em 18/09/2026. O eixo começa em 0,70 para tornar a diferença legível; em escala cheia todas as barras pareceriam iguais, e é exatamente isso que o índice esconde.
#UFIDHM 2024LongevidadeEducaçãoRendaFaixaApurado em
1Distrito Federal0,8660,9130,8510,837muito alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
2São Paulo0,8380,8670,8500,799muito alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
3Santa Catarina0,8330,8880,8170,797muito alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
4Paraná0,8220,8640,8150,790muito alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
5Rio de Janeiro0,8190,8440,8260,789muito alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
6Rio Grande do Sul0,8180,8690,7910,796muito alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
7Goiás0,8150,8630,8210,763muito alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
8Mato Grosso0,8120,8450,8160,776muito alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
9Minas Gerais0,8090,8750,8030,754muito alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
10Espírito Santo0,8040,8700,7840,763muito alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
11Tocantins0,7970,8610,8010,734alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
12Mato Grosso do Sul0,7970,8400,7860,766alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
13Rondônia0,7860,8500,7780,734alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
14Roraima0,7800,8230,8100,713alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
15Rio Grande do Norte0,7780,8810,7410,720alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
16Ceará0,7730,8710,7830,677alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
17Pernambuco0,7670,8420,7640,702alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
18Amazonas0,7670,8410,7880,680alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
19Piauí0,7640,8660,7420,695alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
20Sergipe0,7610,8560,7310,705alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
21Paraíba0,7600,8640,7300,696alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
22Bahia0,7590,8470,7430,694alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
23Amapá0,7590,8220,7450,713alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
24Pará0,7580,8540,7360,692alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
25Acre0,7540,8480,7400,684alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
26Alagoas0,7460,8230,7290,691alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
27Maranhão0,7450,8440,7460,658alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024
Brasil0,8050,8600,7980,760muito alto18/09/2026 · PNUD, Painel IDHM 2024

Duas advertências sobre a tabela, para ela não dizer mais do que sabe. A primeira: 2024 foi o ano de maior IDHM da série em todas as unidades, o que reflete a recuperação depois da queda de 2021 (o índice nacional caiu a 0,757 na pandemia e subiu 0,048 em três anos). Um estado no fim da lista em 2024 pode ter melhorado mais, em termos absolutos, do que um no topo — e vários melhoraram. A segunda: o IDHM é média, e o PNUD publica junto o índice ajustado à desigualdade, que desconta a dispersão dentro de cada dimensão. Para o Brasil, esse ajuste tira 20,4% do índice e o leva de 0,805 para 0,641 — de “muito alto” para “médio”. O mesmo painel mostra IDHM de 0,851 para a população branca e 0,774 para a população negra em 2024. O país que vai votar tem duas faixas de desenvolvimento convivendo dentro de cada estado, não só entre eles.

Escolarização e alfabetização: quem consegue ler o que está em jogo

A PNAD Contínua de 2025, publicada pelo IBGE em junho de 2026, é a medição mais recente que existe sobre escolaridade no país. Ela diz que 4,9% dos brasileiros de 15 anos ou mais não sabem ler e escrever um bilhete simples — a menor taxa da série, e ainda assim algo perto de 8 milhões de adultos. A média esconde a amplitude: em Santa Catarina, 1,5%; no Piauí e em Alagoas, 13,1%. Nos anos médios de estudo da população de 25 anos ou mais, o Distrito Federal tem 12,2, o equivalente a ensino médio completo; Paraíba e Alagoas têm 8,6, o que corresponde a ensino fundamental incompleto. Há estados em que o adulto médio não terminou o fundamental, e é esse adulto que vai escolher quem administra a escola do filho dele.

UFAnalfabetismo 15+ (2025)Anos de estudo, 25+ (2025)Ensino médio completo ou mais, 14+ (2025)Superior completo, 14+ (2025)Apurado em
Santa Catarina1,5%10,858,4%21,1%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Rio de Janeiro1,6%11,464,4%23,3%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
São Paulo1,9%11,264,4%23,3%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Distrito Federal2,0%12,270,5%34,0%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Rio Grande do Sul2,2%10,654,5%18,6%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Paraná3,3%10,356,6%19,9%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Roraima3,4%11,063,4%18,9%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Goiás3,5%10,557,6%18,1%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Mato Grosso3,5%10,456,4%17,5%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Minas Gerais3,8%10,053,0%16,6%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Espírito Santo3,8%10,254,1%18,1%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Mato Grosso do Sul3,9%10,352,8%19,1%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Amazonas4,3%10,458,4%14,1%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Amapá4,5%10,759,7%18,9%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Rondônia5,1%9,247,1%13,6%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Pará6,2%9,447,7%11,3%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Tocantins6,8%10,054,4%17,3%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Acre8,9%9,348,6%14,7%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Rio Grande do Norte9,3%9,449,3%15,4%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Bahia9,5%8,947,4%10,9%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Pernambuco10,1%9,350,1%13,9%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Sergipe10,3%9,046,1%12,7%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Maranhão10,9%8,847,0%10,3%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Ceará11,1%8,947,6%11,5%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Paraíba11,6%8,643,0%12,2%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Piauí13,1%8,745,0%13,2%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Alagoas13,1%8,644,8%11,5%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)
Brasil4,9%10,255,8%18,0%18/09/2026 · IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 7125, 7127, 7128)

A leitura desta tabela pede cuidado com a causalidade, e é aqui que a casa se separa do discurso fácil. É tentador dizer que o estado com menos escolaridade “vota pior”, e isso é exatamente o que este texto não afirma, por duas razões. A primeira é que a escolaridade de hoje é o resultado de décadas de decisões anteriores — orçamento de educação de 1990, de 2000, de 2010 —, e a pessoa que não terminou o fundamental não escolheu o orçamento que faltou na infância dela. A segunda é que não há medição que sustente a frase. O que há de medido é outra coisa, e vem no próximo bloco: que a informação, quando chega ao eleitor, muda o voto dele — inclusive, e sobretudo, onde a escolaridade é menor. O problema não é o eleitor; é o que chega até ele.

Um dado do Inep completa o quadro pelo lado das crianças. O Ideb de 2025, divulgado em agosto de 2026, é o maior da série em todas as etapas: 6,3 nos anos iniciais do fundamental, 5,3 nos anos finais e 4,5 no ensino médio, considerando redes pública e privada. Só na rede pública, o ensino médio fica em 4,3. O MEC anunciou acompanhamento próximo de 442 municípios que seguem com Ideb abaixo de 4,9 nos anos iniciais — eram 1.097 em 2023 e 4.110 em 2005. É progresso real e é lento; e o ensino médio, a etapa com pior nota, é justamente a que o governador e a Assembleia Legislativa administram.

Qualidade de vida: cinco anos de vida entre um estado e outro

Se a educação mede o que o Estado fez pelas pessoas nos primeiros vinte anos, a longevidade e a renda medem o que ele faz depois. Pelas Projeções da População de 2024 do IBGE, um brasileiro nascido naquele ano tem esperança de vida de 76,6 anos. No Distrito Federal, 79,7; em Santa Catarina, 78,3; no Amapá e em Roraima, 74,3. A distância entre o primeiro e os últimos é de 5,4 anos de vida, e não há herança genética que explique isso: é saneamento, é pronto-socorro, é vacina, é estrada. A mortalidade infantil conta a mesma história em escala mais dura — 8,7 mortes por mil nascidos vivos em Santa Catarina contra 21,8 em Roraima, duas vezes e meia.

UFEsperança de vida ao nascer (2024)Mortalidade infantil, por mil (2024)Renda domiciliar per capita (2025)Gini da renda per capita (2025)Apurado em
Distrito Federal79,7 anos10,6R$ 4.4010,57018/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Santa Catarina78,3 anos8,7R$ 2.7520,42518/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Rio Grande do Norte77,8 anos10,9R$ 1.7790,54018/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Minas Gerais77,5 anos11,0R$ 2.2890,47318/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Ceará77,3 anos11,4R$ 1.3790,50618/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Rio Grande do Sul77,2 anos9,5R$ 2.7720,46818/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Espírito Santo77,2 anos11,2R$ 2.2090,48018/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
São Paulo77,0 anos11,0R$ 2.8620,49118/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Piauí77,0 anos14,6R$ 1.5340,50818/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Paraná76,8 anos10,5R$ 2.6870,47018/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Goiás76,8 anos12,0R$ 2.3780,47918/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Paraíba76,8 anos13,0R$ 1.5420,50718/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Tocantins76,7 anos12,5R$ 1.9790,47218/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Sergipe76,4 anos18,2R$ 1.6880,53218/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Pará76,3 anos14,6R$ 1.4350,49218/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Rondônia76,0 anos12,1R$ 1.9700,45818/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Acre75,9 anos17,1R$ 1.3720,50918/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Bahia75,8 anos14,3R$ 1.4520,46618/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Mato Grosso75,7 anos13,5R$ 2.2970,43918/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Rio de Janeiro75,6 anos12,9R$ 2.7320,54318/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Maranhão75,6 anos14,6R$ 1.2310,49118/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Pernambuco75,5 anos12,7R$ 1.5680,52018/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Amazonas75,5 anos16,6R$ 1.4500,48818/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Mato Grosso do Sul75,4 anos13,4R$ 2.3690,45718/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Alagoas74,4 anos13,6R$ 1.4010,51218/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Roraima74,3 anos21,8R$ 1.8700,50618/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Amapá74,3 anos19,2R$ 1.6750,49618/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)
Brasil76,6 anos12,2R$ 2.2640,51118/09/2026 · IBGE, Projeções 2024 (tab. 4) e PNAD Contínua (SIDRA 7531, 7435)

A coluna de renda é a que mais se aproxima do bolso, e a que mais engana quando lida sozinha. A renda domiciliar per capita média do país, em 2025, foi de R$ 2.264 por mês; no Distrito Federal, R$ 4.401; no Maranhão, R$ 1.231 — 3,6 vezes menos. Mas o Gini ao lado mostra que o Distrito Federal é também a unidade mais desigual do país (0,570), enquanto Santa Catarina, com renda média quase igual à de São Paulo, tem a distribuição menos concentrada (0,425). Renda alta com Gini alto significa que a média está longe da vida de quase todo mundo. Quem lê só a primeira coluna acha que Brasília é um lugar rico; quem lê as duas entende que é um lugar onde a riqueza está muito bem guardada.

Por que estes três blocos de números estão num texto sobre voto

Porque cada linha das tabelas acima é resultado de orçamento, e orçamento é a única coisa que os seis cargos da urna têm em comum. O deputado federal e o senador votam os R$ 4,7 trilhões da União. O governador propõe e o deputado estadual aprova o orçamento do estado — onde vive o ensino médio de Ideb 4,3, o hospital regional e a polícia. O presidente sanciona ou veta. Não existe outro mecanismo pelo qual um cidadão comum decide quem segura esse dinheiro. As pesquisas de opinião não decidem; a reclamação nas redes não decide; o voto decide, e decide uma vez a cada quatro anos.

O que a escolha errada custa: três medições, não uma opinião

A frase “corrupção rouba da saúde e da educação” é dita tanto que virou ruído. A questão de método é se ela pode ser medida — e pode, porque o Brasil produziu, por acidente institucional, um dos melhores experimentos naturais do mundo sobre isso. Desde 2003, a Controladoria-Geral da União sorteia municípios para auditar o uso de recursos federais transferidos, e publica os relatórios. Sorteio é aleatório; logo, comparar municípios auditados antes e depois de uma eleição, com o mesmo nível de irregularidade encontrada, isola o efeito da informação. Três estudos usaram esse desenho, e os três são publicados em revistas com revisão por pares ou como working paper do NBER.

O primeiro é de Claudio Ferraz e Frederico Finan, no Quarterly Journal of Economics de 2008. Eles compararam prefeitos auditados antes da eleição de 2004 com prefeitos auditados depois. Onde a auditoria encontrou duas irregularidades e o relatório saiu antes da eleição, a probabilidade de reeleição do prefeito caiu sete pontos percentuais, ou 17%, em relação ao grupo de controle; com três irregularidades, quase catorze pontos. Onde havia uma rádio local para divulgar o relatório, a queda foi de onze pontos com duas irregularidades. E o resultado que mais importa para quem acha que o eleitor “não liga”: quando a auditoria não achou nada e havia rádio na cidade, a reeleição do prefeito subiu dezessete pontos. O eleitor puniu quem desviou e recompensou quem não desviou — assim que soube.

O segundo, dos mesmos autores, foi publicado na American Economic Review em 2011 e aparece como working paper do NBER de 2009. Ele mede o outro lado: o incentivo de quem governa. Prefeitos que podiam disputar a reeleição desviaram 27% menos recursos do que prefeitos em segundo mandato, sem incentivo eleitoral — e a diferença foi maior onde havia menos acesso a informação e menor chance de punição judicial. Ou seja, a simples existência de uma próxima eleição, em que o eleitor pode dizer não, reduz o desvio. O voto funciona antes de ser depositado.

O terceiro é o que fecha a conta com a vida das pessoas. Ferraz, Finan e Diana Moreira, em Corrupting Learning (NBER 18150, 2012), cruzaram as auditorias com os resultados escolares. Em municípios onde a CGU encontrou desvio nos recursos federais da educação, os alunos tiraram 0,35 desvio-padrão a menos nas provas padronizadas, tiveram taxas significativamente maiores de abandono e reprovação, e as escolas tinham menos laboratório de informática, menos material didático e menos formação de professor. A conclusão dos autores é de uma modéstia que a casa aprecia: “onde faltam recursos básicos, o dinheiro importa para o aprendizado”. Não é um número abstrato: é uma criança que aprendeu menos porque alguém votou sem olhar, e alguém desviou sabendo disso.

O que essas três medições dizem juntas — e o que não dizem

  • Dizem que o eleitor informado muda o voto, inclusive em municípios pequenos e de baixa escolaridade — o efeito foi medido em 2004, antes das redes sociais, com a rádio local como canal.
  • Dizem que a possibilidade de perder a eleição reduz o desvio em quem governa, em cerca de um quarto.
  • Dizem que o desvio detectado no dinheiro da educação aparece na nota e no abandono das crianças, com efeito mensurável.
  • Não dizem que “todo político desvia”, nem que eleitor de algum estado é pior do que o de outro. Os três estudos são sobre prefeitos e recursos federais; a extrapolação para governador, deputado ou presidente é minha, e a declaro como tal: a lógica é a mesma, o número exato não é.

O voto que não existe: 38 milhões de pessoas em 2022

No primeiro turno de 2022, 32.770.982 eleitores não compareceram — 20,95% dos aptos, pelo TSE. Somando 3.487.874 votos nulos e 1.964.779 brancos, 38,2 milhões de brasileiros com título não escolheram ninguém. Para dar escala, o candidato mais votado à Presidência naquele primeiro turno recebeu 57,3 milhões de votos, e a diferença entre o primeiro e o segundo colocado foi de 6,2 milhões. A abstenção sozinha era cinco vezes essa diferença. Isso não diz quem venceria se todos votassem — ninguém sabe, e quem diz que sabe está adivinhando. Diz que o maior bloco eleitoral do país é o que não vota, e que ele é maior do que a margem de qualquer disputa recente.

Aqui a casa faz questão de não moralizar. Quem não vota não é preguiçoso nem alienado por definição: é alguém que, na experiência pessoal dele, nunca viu o voto mudar alguma coisa, e concluiu com base na única amostra que tinha — a própria vida. Essa conclusão é racional dentro daquela história. O problema é que a amostra é pequena, e as medições acima, com milhares de municípios, dizem o contrário dela. O que este texto pode oferecer a quem se abstém não é um sermão, é um dado: o eleitor que soube do relatório da CGU mudou o voto, e o prefeito que sabia que poderia perder desviou menos. O voto não muda o mundo; muda a probabilidade de quem segura o dinheiro ser punido ou premiado. É pouco, e é a única alavanca que existe.

Um método de cinco passos para decidir — sem que eu diga em quem

Entre a propaganda e a urna existe um intervalo, e o voto é o que se faz nele. A campanha de 2026 tem R$ 4,96 bilhões de fundo, deepfakes sobre os quais o TSE fixou tese própria para 2026 e mensagens de WhatsApp que sabem o seu nome. Nada disso é novo em espécie; é novo em escala e em precisão. O método abaixo é o mesmo que a casa usa para avaliar um produto financeiro: ir à fonte primária, datar a consulta, desconfiar primeiro do próprio julgamento.

  1. Comece pelo cargo, não pelo nome. Antes de escolher o deputado estadual, leia o que a Assembleia do seu estado votou nos últimos quatro anos — orçamento, ICMS, segurança. Os portais das Assembleias e da Câmara publicam a votação nominal de cada projeto. Um candidato à reeleição tem histórico público; um candidato novo tem, no mínimo, a lista de bens e de processos no DivulgaCand do TSE.
  2. Abra o DivulgaCand. É o sistema oficial do TSE com a ficha de cada candidato: declaração de bens, situação do registro, certidões, partido e, para senador, os dois suplentes. Candidatura “sub judice” aparece lá. É a única fonte que não depende de quem está contando.
  3. Siga o dinheiro dele, não o discurso. A prestação de contas de campanha é pública no mesmo portal e mostra quem doou e quanto veio do fundo. Para quem já tem mandato, o Portal da Transparência e os portais da Câmara e do Senado mostram emendas indicadas e destino. O que uma pessoa fez com dinheiro público que já teve na mão diz mais do que qualquer promessa.
  4. Trate qualquer coisa que chegue por mensagem como não verificada. Vídeo, áudio, print de pesquisa: tudo isso hoje se fabrica em minutos, e a casa já mostrou como o golpe personalizado por IA passou a acertar o nome, o banco e o chefe da vítima — a campanha usa a mesma tecnologia. O teste é o mesmo do golpe: quem se recusa a ser confirmado por outro canal está pedindo que você não confira.
  5. Desconfie primeiro de si. O candidato que confirma o que você já pensava merece o dobro do escrutínio, porque é nele que o seu julgamento vai falhar sem avisar. A pergunta que a casa faz sobre tese de investimento serve aqui: o que teria de ser verdade para eu estar errado sobre esta pessoa — e eu procurei isso, ou só procurei confirmação?

O leitor vai notar que nenhum passo fala de ideologia, e isso é deliberado. Não porque ideologia não importe — importa, e é legítimo votar por ela — mas porque ela é a parte da decisão que o leitor já sabe fazer sozinho. O que este texto pode acrescentar é a parte que quase ninguém faz: conferir, na fonte, o que a pessoa fez com o dinheiro. É a diferença entre escolher um fundo de investimento pelo nome e abrir a lâmina. A casa já argumentou, sobre a Curva de Laffer e a promessa de que cortar imposto se paga sozinho, que a promessa fiscal mais sedutora costuma ser a que a medição não sustenta — e um programa de governo é, antes de tudo, uma promessa fiscal.

O que o voto NÃO resolve, para ninguém sair daqui com expectativa errada

Um voto não muda o IDHM do seu estado em quatro anos; a educação de 2024 é o orçamento de 2004. O que ele muda é quem administra o orçamento de 2027 a 2030 — e a medição diz que isso aparece, com atraso, na nota e na expectativa de vida de quem ainda não nasceu. Frankl escreveu que entre o estímulo e a resposta existe um espaço, e que nesse espaço está a liberdade. O voto é um espaço de alguns segundos numa cabine, uma vez a cada quatro anos. Cabe muito pouco nele. Cabe o suficiente.

Fontes consultadas

O que este texto NÃO afirma: o custo total de organizar a eleição (urnas, mesários, logística) — o TSE publica o orçamento da Justiça Eleitoral, mas não encontrei, na consulta de 18/09/2026, um valor consolidado e oficial para 2026, e por isso ele fica fora. Também não traz o Ideb de 2025 por estado: o Inep o publica em gráfico, não em tabela aberta na notícia, e a régua da casa não aceita número lido de imagem. A esperança de vida vem das Projeções 2024 do IBGE (revisão de 2024), e não das Tábuas Completas de Mortalidade, que usam outro método e podem diferir em décimos; circulam valores diferentes para o mesmo ano, e a peça declara qual usou.

Perguntas frequentes

Quanto custa o fundo eleitoral de 2026 por eleitor?

R$ 31,25. O Fundo Especial de Financiamento de Campanha de 2026 é de R$ 4.961.519.777,00, pelo TSE, e o eleitorado apto é de 158.745.463 pessoas. A divisão é conta minha sobre os dois números oficiais. Somando o Fundo Partidário de 2025 (R$ 1,126 bilhão), o custo público de campanha e manutenção partidária fica em cerca de R$ 38 por eleitor por ano.

O que faz um deputado estadual?

Vota o orçamento do estado — que paga o ensino médio público, as polícias civil e militar e os hospitais estaduais —, legisla sobre ICMS, IPVA e servidores estaduais e fiscaliza o governador, pelos artigos 25 a 28 da Constituição. É o cargo menos conhecido da urna e o que decide o dinheiro dos serviços que a maioria das pessoas usa todo dia.

Qual é o estado com maior e menor IDH do Brasil em 2024?

O Distrito Federal tem o maior IDHM (0,866) e o Maranhão o menor (0,745), pelo Painel IDHM do PNUD com dados de 2024. O Brasil está em 0,805, na faixa “muito alto” pela primeira vez; dez unidades estão acima de 0,800 e dezessete abaixo. Ajustado à desigualdade, o índice nacional cai para 0,641.

Qual é a taxa de analfabetismo no Brasil e nos estados?

4,9% das pessoas de 15 anos ou mais em 2025, pela PNAD Contínua do IBGE — a menor da série. Santa Catarina tem 1,5% e Rio de Janeiro 1,6%; Piauí e Alagoas têm 13,1%, Paraíba 11,6% e Ceará 11,1%. A média de anos de estudo dos adultos de 25 anos ou mais vai de 12,2 no Distrito Federal a 8,6 na Paraíba e em Alagoas.

Existe prova de que votar mal afeta a vida das pessoas?

Existe medição, com desenho experimental. Ferraz, Finan e Moreira (NBER, 2012) mostraram que, em municípios onde a auditoria da CGU achou desvio no dinheiro federal da educação, os alunos tiraram 0,35 desvio-padrão a menos nas provas e abandonaram mais a escola. Ferraz e Finan (QJE, 2008) mostraram que a divulgação das auditorias reduziu em 7 pontos percentuais a reeleição de prefeitos com duas irregularidades, e aumentou em 17 pontos a de quem não tinha nenhuma, onde havia rádio local.

Quantas pessoas deixaram de votar em 2022?

32.770.982 eleitores se abstiveram no primeiro turno, 20,95% dos aptos, pelo TSE. Somando 3.487.874 votos nulos e 1.964.779 brancos, 38,2 milhões de eleitores — 24,4% — não escolheram ninguém. A diferença entre o primeiro e o segundo colocado à Presidência naquele turno foi de 6,2 milhões de votos.

Como conferir um candidato antes de votar?

No DivulgaCand, do TSE, estão a declaração de bens, a situação do registro, as certidões e os suplentes de cada candidato; a prestação de contas de campanha fica no mesmo portal. Para quem já tem mandato, os portais da Câmara, do Senado e das Assembleias publicam a votação nominal de cada projeto, e o Portal da Transparência mostra as emendas indicadas. O que a pessoa fez com dinheiro público que já teve na mão é a fonte primária; o discurso é a secundária.

Veredito

O seu voto custa R$ 31 a quem o financia e vale R$ 30 mil por ano a quem o recebe, só no plano federal. Ele escolhe seis pessoas, e a menos conhecida delas — o deputado estadual — é a que vota o orçamento da escola onde o Ideb marca 4,3 e do hospital onde a mortalidade infantil varia de 8,7 a 21,8 por mil, conforme o estado. O país que vota tem IDHM de país desenvolvido na média e de país em desenvolvimento em dezessete unidades, cinco anos de vida de diferença entre o Distrito Federal e Roraima, e adultos que não terminaram o fundamental escolhendo quem administra a escola dos filhos. Nada disso é culpa do eleitor, e tudo isso passa pela mão dele uma vez a cada quatro anos. A medição diz o resto: onde a informação chegou, o voto mudou, o desvio caiu e a nota subiu. Este texto não diz em quem votar. Diz onde olhar antes de decidir, e que olhar custa menos do que não olhar — a diferença está numa criança que aprendeu 0,35 desvio-padrão a menos porque ninguém conferiu.

Conteúdo educacional e de opinião do editor. Não constitui recomendação de investimento nem orientação financeira personalizada.