Conteúdo educativo, sem recomendação personalizada de investimento ou financeira. Valores de preço, duration e variação percentual são ilustrativos para mostrar a relação; taxas e preços reais mudam todo dia útil — consulte a página “Preços e Taxas” do Tesouro Direto antes de decidir. Selic em 14,25% a.a. · CDI em ~14,15% a.a.
Seu Tesouro IPCA+ aparece com prejuízo de 6% no extrato — num mês em que o juro do país caiu. Parece contradição, parece erro da corretora, parece hora de vender antes que piore. Não é nada disso. É marcação a mercado funcionando exatamente como deveria, e o número vermelho na tela pode ser, ao contrário do instinto, uma boa notícia.
Resposta direta: marcação a mercado é o preço pelo qual você conseguiria vender hoje seu título público, se quisesse sair antes do vencimento. Esse preço se move todo dia útil, na direção oposta à das taxas de juros: quando o juro de mercado cai, o preço do prefixado e do IPCA+ sobe; quando o juro sobe, o preço cai. Isso só importa se você vender antes do prazo. Quem carrega o título até o vencimento recebe exatamente a rentabilidade contratada na compra — a oscilação no meio do caminho é ruído no extrato, não perda de dinheiro.
- Selic meta hoje: 14,25% a.a. (definida pelo Copom; fonte Banco Central).
- Regra de ouro: título Selic/pós-fixado quase não marca; prefixado e IPCA+ marcam, e quanto mais longo o vencimento, mais forte a oscilação.
- O Tesouro Nacional garante recompra diária de todos os títulos, ao preço de mercado do dia — é isso que dá liquidez e é isso que gera a marcação.
O que é marcação a mercado (e por que ela existe)
Quando você compra um Tesouro Prefixado 2032, está travando uma taxa — digamos, 13% ao ano até 2032. Essa é a rentabilidade que você recebe se levar o papel até o fim. O Tesouro Nacional se compromete a pagar isso no vencimento, e cumpre.
Mas o Tesouro Direto também oferece uma segunda coisa: liquidez diária. Todo dia útil, o Tesouro se dispõe a recomprar o seu título de volta, caso você precise do dinheiro antes do prazo. E aqui está o pulo do gato: por qual preço ele recompra? Pelo preço que faz sentido naquele dia, dadas as taxas de juros vigentes no mercado. Esse preço diário é a marcação a mercado.
A marcação existe, portanto, como o outro lado da moeda da liquidez. Sem a promessa de recompra diária, não haveria preço de mercado a acompanhar — você simplesmente esperaria o vencimento. É porque você pode sair a qualquer momento que existe um preço de saída que sobe e desce.
| Conceito | Quando vale | É garantida? |
|---|---|---|
| Taxa contratada (ex.: 13% a.a.) | Se você carregar até o vencimento | Sim, pelo Tesouro Nacional |
| Preço de marcação a mercado | Se você vender antes do vencimento | Não — flutua todo dia útil |
| Rentabilidade realizada na venda antecipada | Pode ser maior OU menor que a contratada | Depende da taxa no dia da venda |
A relação inversa preço × taxa: o coração da coisa
Aqui está o mecanismo que confunde quase todo mundo na primeira vez. Um título prefixado promete pagar um valor fixo no vencimento — no Tesouro, R$ 1.000 por unidade. O que muda, no dia a dia, é quanto o mercado paga hoje por esse direito de receber R$ 1.000 lá na frente.
Se as taxas de juros da economia caem, os títulos novos que passam a ser emitidos pagam menos. De repente, o seu título velho — que trava uma taxa maior — vira um objeto de desejo: ele rende mais do que se consegue no mercado agora. Como ele ficou mais atraente, o preço que os compradores estão dispostos a pagar por ele sobe. Juro caiu, preço subiu.
O contrário também vale. Se as taxas sobem, os títulos novos pagam mais, o seu título velho fica relativamente pior, e o preço que alguém pagaria por ele cai. Juro subiu, preço caiu.
| Cenário de mercado | Taxa exigida pelo mercado | Preço de venda hoje | Efeito no seu extrato |
|---|---|---|---|
| Você comprou | 13,0% a.a. | R$ 380 (ilustrativo) | — |
| Juros CAEM | 11,0% a.a. | ≈ R$ 430 | Valor de mercado sobe (ganho se vender) |
| Juros SOBEM | 15,0% a.a. | ≈ R$ 335 | Valor de mercado cai (perda se vender) |
Por que só afeta quem vende antes do vencimento
Este é o ponto que dissolve 90% da ansiedade com marcação a mercado. O preço de mercado só é um preço real — dinheiro que entra ou sai da sua conta — no instante em que você executa uma venda antecipada. Enquanto o título continua na sua carteira, o valor de mercado é uma estimativa, uma foto de quanto ele valeria numa venda hipotética.
No dia do vencimento, toda a oscilação some. O Tesouro paga o valor de face contratado — os R$ 1.000 por unidade do prefixado, ou o principal corrigido pelo IPCA mais a taxa combinada, no caso do IPCA+. As idas e vindas do preço no meio do caminho não mudam esse desfecho em nada. É como o preço de uma casa que você não vai vender: sobe, cai, e no fim você continua morando nela do mesmo jeito.
| Situação | Vende antes do vencimento | Carrega até o vencimento |
|---|---|---|
| Recebe | Preço de mercado do dia | Rentabilidade contratada na compra |
| Marcação a mercado | Determina o resultado | Irrelevante ao resultado final |
| Risco de oscilação | Real | Neutralizado pelo prazo |
| Melhor para | Quem quer/precisa liquidez | Quem casa o prazo com um objetivo datado |
Duration: por que o título longo balança mais
Nem todo título prefixado ou IPCA+ oscila igual. Um Tesouro Prefixado 2028 e um Tesouro Prefixado 2035 reagem à mesma queda de juros com intensidades bem diferentes — o mais longo se move muito mais. O conceito por trás disso é a duration: uma medida, em anos, do prazo médio em que você recebe o dinheiro do título. Quanto maior a duration, mais sensível o preço é a cada variação de taxa.
A intuição: no título longo, cada mudança de juro incide sobre muitos anos de fluxo futuro, e o efeito se acumula. No título curto, falta pouco para o vencimento — o preço já está “puxado” para perto do valor de face, e sobra pouca margem para oscilar. Por isso o prefixado longo e o IPCA+ longo são os que mais sobem numa queda de juros — e os que mais caem numa alta.
| Título (exemplo) | Prazo até o vencimento | Duration (aprox.) | Variação de preço estimada |
|---|---|---|---|
| Prefixado curto | ~2 anos | ~2 anos | +2% (leve) |
| Prefixado médio | ~6 anos | ~5 anos | +5% (moderado) |
| IPCA+ longo | ~19 anos | ~12 anos | +12% ou mais (forte) |
Qual título sofre mais — e qual quase não marca
Se a marcação a mercado assusta, a boa notícia é que ela não atinge todos os títulos igualmente. Há um em particular que passa praticamente ileso.
O Tesouro Selic (pós-fixado, LFT) acompanha a taxa Selic dia a dia. Como a remuneração dele se ajusta ao juro corrente em vez de travar uma taxa fixa, o seu preço quase não descola do valor investido. Ele tem marcação a mercado — tecnicamente tudo tem —, mas de magnitude tão pequena que, na prática, o extrato raramente mostra oscilação relevante. É o título da reserva de emergência justamente por isso: você tira o dinheiro quando precisar, perto do valor que colocou, sem sustos de preço.
No outro extremo estão o Prefixado longo e o IPCA+ longo. São eles que sobem forte quando o juro cai e caem forte quando o juro sobe. Concentram a oportunidade e o risco da marcação.
| Título | Tipo | Marca a mercado? | Intensidade |
|---|---|---|---|
| Tesouro Selic | Pós-fixado (Selic) | Quase não | Mínima |
| Tesouro Prefixado curto | Prefixado | Sim | Baixa |
| Tesouro IPCA+ curto | Híbrido (IPCA + taxa) | Sim | Baixa a média |
| Tesouro Prefixado longo | Prefixado | Sim | Alta |
| Tesouro IPCA+ longo | Híbrido (IPCA + taxa) | Sim | Muito alta |
A oportunidade contrária: ganhar vendendo antes
Até aqui, marcação a mercado soou como um risco a ser evitado. Mas há um lado que raramente se conta com clareza: a mesma mecânica que produz o prejuízo no extrato produz, em outro cenário, um ganho de capital real — dinheiro de verdade, sacável.
Se você comprou um prefixado ou IPCA+ longo travando uma taxa alta, e depois o juro do país cai, o preço de mercado do seu título sobe. Vendendo naquele momento, você embolsa a valorização de uma vez, em vez de esperar anos até o vencimento para receber a taxa contratada. Foi assim que muita gente que comprou títulos longos em picos de Selic realizou ganhos expressivos quando o ciclo de juros virou para baixo.
É uma estratégia legítima — e também uma aposta. Ela depende de acertar duas coisas: comprar quando a taxa está alta (portanto, apostar que ela vai cair) e ter a disciplina de vender quando o ganho aparece. O erro comum é o oposto: comprar título longo por acidente, sem entender a volatilidade, precisar do dinheiro num momento de juro alto e ser forçado a vender no fundo do preço.
| Investidor | Comprou | Juro depois | Precisou vender? | Resultado |
|---|---|---|---|---|
| A — planejado | Prefixado longo em juro alto | Caiu | Vendeu por escolha, no lucro | Ganho de capital antecipado |
| B — descasado | Prefixado longo sem entender | Subiu | Vendeu por necessidade, no prejuízo | Perda realizada |
| C — carregou | Prefixado longo | Oscilou | Não vendeu | Recebeu a taxa contratada |
O risco honesto, sem maquiar
Nada disso significa que marcação a mercado é inofensiva. O risco é concreto: se você precisar do dinheiro num momento em que os juros subiram desde a sua compra, vai vender abaixo do que investiu — e a perda é real, não contábil. Renda fixa longa pode dar prejuízo para quem sai na hora errada. A expressão “renda fixa” engana muita gente aqui: o rendimento só é “fixo” para quem carrega até o fim.
Há ainda o risco de comportamento, que costuma ser maior que o de mercado: ver o extrato no vermelho e vender no pânico, transformando uma oscilação temporária em perda definitiva. Quem entende marcação a mercado não vende no susto — sabe que, se o plano é carregar, o número vermelho vai voltar ao valor de face no vencimento.
| Risco | Quando se materializa | Como mitigar |
|---|---|---|
| Vender no prejuízo | Precisa do dinheiro com juro em alta | Casar prazo com objetivo; manter reserva em Selic |
| Pânico de extrato | Ver valor de mercado negativo | Entender que a taxa contratada vale no vencimento |
| Descasamento de prazo | Comprar título longo para objetivo curto | Escolher vencimento ≤ horizonte do dinheiro |
Perguntas frequentes
Meu Tesouro Direto aparece com prejuízo. Perdi dinheiro?
Só se você vender agora. O valor negativo no extrato é o preço de mercado do dia — quanto o título valeria numa venda antecipada. Se você carregar até o vencimento, recebe a rentabilidade contratada na compra, independentemente das oscilações no meio do caminho.
Qual título do Tesouro não sofre marcação a mercado?
O Tesouro Selic (pós-fixado) é o que praticamente não marca — seu preço acompanha a taxa Selic e quase não descola do valor investido. Por isso é o preferido para reserva de emergência. Prefixados e IPCA+ marcam, e quanto mais longo o vencimento, mais forte a oscilação.
Por que o preço sobe quando o juro cai?
Porque o seu título trava uma taxa fixa. Quando o juro de mercado cai, os títulos novos passam a pagar menos, e o seu — que rende mais — fica mais valioso. Compradores pagam mais por ele, e o preço de mercado sobe. É a relação inversa entre preço e taxa.
Vale a pena vender antes do vencimento para lucrar com a queda dos juros?
Pode valer, se você comprou um título longo travando taxa alta e o juro caiu depois — a venda antecipada realiza o ganho de capital de uma vez. Mas é uma aposta direcional: depende de o juro efetivamente cair e de você ter disciplina para vender no momento certo. Não é garantia; é estratégia com risco.
O que é duration, em uma frase?
É o prazo médio, em anos, em que você recebe o dinheiro do título — e funciona como um multiplicador da oscilação: quanto maior a duration, mais o preço se move a cada variação de taxa. Título longo tem duration alta e balança muito; título curto tem duration baixa e balança pouco.
Veredito
Marcação a mercado não é uma armadilha do Tesouro Direto — é o preço da liquidez que ele te oferece de graça. O erro nunca está no mecanismo; está em comprar um título cujo prazo você não consegue respeitar, e depois ser forçado a vender no momento errado. Quem entende isso passa a ler o extrato com calma: o número vermelho num prefixado longo, em plena queda de juros, é a valorização que você poderia realizar — não um prejuízo que te aconteceu.
A prática que resolve quase tudo é anterior à compra e sem glamour: mantenha a reserva de emergência em Tesouro Selic, que não marca, e escolha o vencimento dos títulos longos de acordo com objetivos datados que você não vai precisar tocar antes. Feito isso, a marcação a mercado deixa de ser fonte de ansiedade e vira o que sempre foi — uma informação diária sobre um preço que só importa no dia em que você decidir vender. E essa data, ao contrário do juro, está inteiramente nas suas mãos.
Verificação: taxa Selic meta vigente confirmada no Banco Central (série SGS 432) na data de publicação e servida dinamicamente pelo shortcode de taxas. Mecânica de marcação a mercado, recompra diária e valor de face no vencimento conforme regras do Tesouro Direto/Tesouro Nacional. Valores de preço, duration e variação percentual são ilustrativos, para demonstrar a relação, e não correspondem a um título específico numa data específica — os números reais estão na página “Preços e Taxas dos Títulos” do Tesouro Direto no dia da consulta.
FONTES:
- Tesouro Nacional / Tesouro Direto — regras de recompra diária, marcação a mercado, valor de face no vencimento e página “Preços e Taxas dos Títulos”: tesourodireto.com.br. Preços, taxas e durations exatas por título mudam diariamente e devem ser consultados na página oficial no dia.
- Banco Central do Brasil — Selic meta vigente, série SGS 432 (valor 14,25 confirmado na consulta de jul/2026; artigo usa shortcode dinâmico 14,25%, não crava número): bcb.gov.br/controleinflacao/taxaselic.
- Conceito de duration e relação inversa preço × taxa — identidade financeira padrão de precificação de títulos de renda fixa (canon consolidado; não é dado datado).