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Investimentos

Marcação a mercado no Tesouro Direto: por que o número vermelho no extrato pode ser boa notícia

Seu Tesouro IPCA+ aparece com prejuízo num mês de juro em queda? É marcação a mercado — e o vermelho no extrato só vira perda se você vender antes do vencimento. A relação inversa preço × taxa, qual título sofre mais e quando dá para lucrar vendendo antes.

Conteúdo educativo, sem recomendação personalizada de investimento ou financeira. Valores de preço, duration e variação percentual são ilustrativos para mostrar a relação; taxas e preços reais mudam todo dia útil — consulte a página “Preços e Taxas” do Tesouro Direto antes de decidir. Selic em 14,25% a.a. · CDI em ~14,15% a.a.

Seu Tesouro IPCA+ aparece com prejuízo de 6% no extrato — num mês em que o juro do país caiu. Parece contradição, parece erro da corretora, parece hora de vender antes que piore. Não é nada disso. É marcação a mercado funcionando exatamente como deveria, e o número vermelho na tela pode ser, ao contrário do instinto, uma boa notícia.

Resposta direta: marcação a mercado é o preço pelo qual você conseguiria vender hoje seu título público, se quisesse sair antes do vencimento. Esse preço se move todo dia útil, na direção oposta à das taxas de juros: quando o juro de mercado cai, o preço do prefixado e do IPCA+ sobe; quando o juro sobe, o preço cai. Isso só importa se você vender antes do prazo. Quem carrega o título até o vencimento recebe exatamente a rentabilidade contratada na compra — a oscilação no meio do caminho é ruído no extrato, não perda de dinheiro.

Os números-âncora (jul/2026)

  • Selic meta hoje: 14,25% a.a. (definida pelo Copom; fonte Banco Central).
  • Regra de ouro: título Selic/pós-fixado quase não marca; prefixado e IPCA+ marcam, e quanto mais longo o vencimento, mais forte a oscilação.
  • O Tesouro Nacional garante recompra diária de todos os títulos, ao preço de mercado do dia — é isso que dá liquidez e é isso que gera a marcação.

O que é marcação a mercado (e por que ela existe)

Quando você compra um Tesouro Prefixado 2032, está travando uma taxa — digamos, 13% ao ano até 2032. Essa é a rentabilidade que você recebe se levar o papel até o fim. O Tesouro Nacional se compromete a pagar isso no vencimento, e cumpre.

Mas o Tesouro Direto também oferece uma segunda coisa: liquidez diária. Todo dia útil, o Tesouro se dispõe a recomprar o seu título de volta, caso você precise do dinheiro antes do prazo. E aqui está o pulo do gato: por qual preço ele recompra? Pelo preço que faz sentido naquele dia, dadas as taxas de juros vigentes no mercado. Esse preço diário é a marcação a mercado.

A marcação existe, portanto, como o outro lado da moeda da liquidez. Sem a promessa de recompra diária, não haveria preço de mercado a acompanhar — você simplesmente esperaria o vencimento. É porque você pode sair a qualquer momento que existe um preço de saída que sobe e desce.

Duas rentabilidades convivem no mesmo título (ilustrativo)
ConceitoQuando valeÉ garantida?
Taxa contratada (ex.: 13% a.a.)Se você carregar até o vencimentoSim, pelo Tesouro Nacional
Preço de marcação a mercadoSe você vender antes do vencimentoNão — flutua todo dia útil
Rentabilidade realizada na venda antecipadaPode ser maior OU menor que a contratadaDepende da taxa no dia da venda
O erro de leitura mais comum: ver o valor de mercado no extrato e concluir “perdi dinheiro”. Você só perde (ou ganha) de fato no momento em que clica em vender. Antes disso, o número vermelho é apenas quanto o mercado pagaria hoje — uma informação, não um saque da sua conta. Se o plano sempre foi carregar até o vencimento, esse número é literalmente irrelevante para o seu resultado.

A relação inversa preço × taxa: o coração da coisa

Aqui está o mecanismo que confunde quase todo mundo na primeira vez. Um título prefixado promete pagar um valor fixo no vencimento — no Tesouro, R$ 1.000 por unidade. O que muda, no dia a dia, é quanto o mercado paga hoje por esse direito de receber R$ 1.000 lá na frente.

Se as taxas de juros da economia caem, os títulos novos que passam a ser emitidos pagam menos. De repente, o seu título velho — que trava uma taxa maior — vira um objeto de desejo: ele rende mais do que se consegue no mercado agora. Como ele ficou mais atraente, o preço que os compradores estão dispostos a pagar por ele sobe. Juro caiu, preço subiu.

O contrário também vale. Se as taxas sobem, os títulos novos pagam mais, o seu título velho fica relativamente pior, e o preço que alguém pagaria por ele cai. Juro subiu, preço caiu.

Relação inversa — exemplo ILUSTRATIVO com um prefixado de vencimento longo
Cenário de mercadoTaxa exigida pelo mercadoPreço de venda hojeEfeito no seu extrato
Você comprou13,0% a.a.R$ 380 (ilustrativo)
Juros CAEM11,0% a.a.≈ R$ 430Valor de mercado sobe (ganho se vender)
Juros SOBEM15,0% a.a.≈ R$ 335Valor de mercado cai (perda se vender)
Por que “inversa” não é intuitivo: nossa cabeça associa “juro subindo” a “renda fixa melhor” — e está certa, para dinheiro novo. Mas para o título que você já tem na mão, com taxa travada, juro subindo significa que o seu papel virou o “modelo antigo” num mundo onde já existe modelo melhor. Ele desvaloriza. A confusão nasce de misturar o efeito sobre o dinheiro futuro (bom) com o efeito sobre o estoque presente (ruim).
Relação inversa entre preço e taxa de um título prefixado longo Curva descendente: quando a taxa de juros exigida pelo mercado sobe, o preço de venda do título cai. Comprou a 13% por R$ 380; se o juro cai a 11%, o preço sobe para R$ 430; se o juro sobe a 15%, o preço cai para R$ 335. Valores ilustrativos. Juro sobe, preço cai. Juro cai, preço sobe. ILUSTRATIVO preço de venda hoje (R$) taxa de juros exigida pelo mercado (% a.a.)9% 11% 13% 15% 17% R$ 430 ↑ juro cai: preço sobe R$ 380 você comprou aqui R$ 335 ↓ juro sobe: preço cai
Valores ilustrativos. Só vira ganho ou perda de verdade se você vender antes do vencimento — quem carrega até o fim recebe a taxa contratada.

Por que só afeta quem vende antes do vencimento

Este é o ponto que dissolve 90% da ansiedade com marcação a mercado. O preço de mercado só é um preço real — dinheiro que entra ou sai da sua conta — no instante em que você executa uma venda antecipada. Enquanto o título continua na sua carteira, o valor de mercado é uma estimativa, uma foto de quanto ele valeria numa venda hipotética.

No dia do vencimento, toda a oscilação some. O Tesouro paga o valor de face contratado — os R$ 1.000 por unidade do prefixado, ou o principal corrigido pelo IPCA mais a taxa combinada, no caso do IPCA+. As idas e vindas do preço no meio do caminho não mudam esse desfecho em nada. É como o preço de uma casa que você não vai vender: sobe, cai, e no fim você continua morando nela do mesmo jeito.

Mesmo título, dois comportamentos do investidor (ilustrativo)
SituaçãoVende antes do vencimentoCarrega até o vencimento
RecebePreço de mercado do diaRentabilidade contratada na compra
Marcação a mercadoDetermina o resultadoIrrelevante ao resultado final
Risco de oscilaçãoRealNeutralizado pelo prazo
Melhor paraQuem quer/precisa liquidezQuem casa o prazo com um objetivo datado
A decisão que importa é anterior à compra: escolher um vencimento cujo prazo você consiga respeitar. Um IPCA+ 2045 comprado para um objetivo de 2028 é um descasamento — você provavelmente terá de vender antes, exposto ao preço de mercado daquele momento. O mesmo IPCA+ 2045 comprado para a aposentadoria de 2045 carrega até o fim e a marcação vira detalhe. O papel é o mesmo; o que muda é o alinhamento entre prazo e propósito. O caso extremo desse alinhamento é o Tesouro RendA+, desenhado para ser carregado por décadas — nele a marcação vira ruído, desde que você não saque antes da conversão.

Duration: por que o título longo balança mais

Nem todo título prefixado ou IPCA+ oscila igual. Um Tesouro Prefixado 2028 e um Tesouro Prefixado 2035 reagem à mesma queda de juros com intensidades bem diferentes — o mais longo se move muito mais. O conceito por trás disso é a duration: uma medida, em anos, do prazo médio em que você recebe o dinheiro do título. Quanto maior a duration, mais sensível o preço é a cada variação de taxa.

A intuição: no título longo, cada mudança de juro incide sobre muitos anos de fluxo futuro, e o efeito se acumula. No título curto, falta pouco para o vencimento — o preço já está “puxado” para perto do valor de face, e sobra pouca margem para oscilar. Por isso o prefixado longo e o IPCA+ longo são os que mais sobem numa queda de juros — e os que mais caem numa alta.

Sensibilidade aproximada a uma queda de 1 ponto na taxa (ILUSTRATIVO)
Título (exemplo)Prazo até o vencimentoDuration (aprox.)Variação de preço estimada
Prefixado curto~2 anos~2 anos+2% (leve)
Prefixado médio~6 anos~5 anos+5% (moderado)
IPCA+ longo~19 anos~12 anos+12% ou mais (forte)
Regra prática de duration: a variação de preço, para um movimento pequeno de taxa, é grosseiramente a duration multiplicada pela variação da taxa. Duration 12 e o juro caindo 1 ponto → algo em torno de +12% no preço. Não é fórmula exata (há convexidade, e o número real depende do título), mas explica por que os vencimentos longos são montanha-russa e os curtos são lombada.

Qual título sofre mais — e qual quase não marca

Se a marcação a mercado assusta, a boa notícia é que ela não atinge todos os títulos igualmente. Há um em particular que passa praticamente ileso.

O Tesouro Selic (pós-fixado, LFT) acompanha a taxa Selic dia a dia. Como a remuneração dele se ajusta ao juro corrente em vez de travar uma taxa fixa, o seu preço quase não descola do valor investido. Ele tem marcação a mercado — tecnicamente tudo tem —, mas de magnitude tão pequena que, na prática, o extrato raramente mostra oscilação relevante. É o título da reserva de emergência justamente por isso: você tira o dinheiro quando precisar, perto do valor que colocou, sem sustos de preço.

No outro extremo estão o Prefixado longo e o IPCA+ longo. São eles que sobem forte quando o juro cai e caem forte quando o juro sobe. Concentram a oportunidade e o risco da marcação.

Exposição à marcação a mercado por tipo de título
TítuloTipoMarca a mercado?Intensidade
Tesouro SelicPós-fixado (Selic)Quase nãoMínima
Tesouro Prefixado curtoPrefixadoSimBaixa
Tesouro IPCA+ curtoHíbrido (IPCA + taxa)SimBaixa a média
Tesouro Prefixado longoPrefixadoSimAlta
Tesouro IPCA+ longoHíbrido (IPCA + taxa)SimMuito alta
Por que o Selic é o porto seguro: ele não trava uma taxa fixa que possa “envelhecer” quando o mercado muda — ele é a taxa do mercado, atualizada. Não existe o descompasso entre “modelo antigo” e “modelo novo” que faz o prefixado desvalorizar. Por isso é o único do trio que serve para dinheiro que pode ser sacado a qualquer momento sem torcer para o juro estar do lado certo.

A oportunidade contrária: ganhar vendendo antes

Até aqui, marcação a mercado soou como um risco a ser evitado. Mas há um lado que raramente se conta com clareza: a mesma mecânica que produz o prejuízo no extrato produz, em outro cenário, um ganho de capital real — dinheiro de verdade, sacável.

Se você comprou um prefixado ou IPCA+ longo travando uma taxa alta, e depois o juro do país cai, o preço de mercado do seu título sobe. Vendendo naquele momento, você embolsa a valorização de uma vez, em vez de esperar anos até o vencimento para receber a taxa contratada. Foi assim que muita gente que comprou títulos longos em picos de Selic realizou ganhos expressivos quando o ciclo de juros virou para baixo.

É uma estratégia legítima — e também uma aposta. Ela depende de acertar duas coisas: comprar quando a taxa está alta (portanto, apostar que ela vai cair) e ter a disciplina de vender quando o ganho aparece. O erro comum é o oposto: comprar título longo por acidente, sem entender a volatilidade, precisar do dinheiro num momento de juro alto e ser forçado a vender no fundo do preço.

O mesmo movimento de juros, dois desfechos (ilustrativo)
InvestidorComprouJuro depoisPrecisou vender?Resultado
A — planejadoPrefixado longo em juro altoCaiuVendeu por escolha, no lucroGanho de capital antecipado
B — descasadoPrefixado longo sem entenderSubiuVendeu por necessidade, no prejuízoPerda realizada
C — carregouPrefixado longoOscilouNão vendeuRecebeu a taxa contratada
Housel resumiria assim: o risco não está no título — está no descompasso entre o prazo do papel e o prazo do seu dinheiro. O investidor A e o investidor B compraram o mesmo título; o que separou o ganho da perda foi quem controlava a data da venda. Ter uma reserva de emergência em Tesouro Selic é o que garante que você nunca seja o investidor B: com o caixa protegido, você vende o título longo quando quer, não quando precisa.

O risco honesto, sem maquiar

Nada disso significa que marcação a mercado é inofensiva. O risco é concreto: se você precisar do dinheiro num momento em que os juros subiram desde a sua compra, vai vender abaixo do que investiu — e a perda é real, não contábil. Renda fixa longa pode dar prejuízo para quem sai na hora errada. A expressão “renda fixa” engana muita gente aqui: o rendimento só é “fixo” para quem carrega até o fim.

Há ainda o risco de comportamento, que costuma ser maior que o de mercado: ver o extrato no vermelho e vender no pânico, transformando uma oscilação temporária em perda definitiva. Quem entende marcação a mercado não vende no susto — sabe que, se o plano é carregar, o número vermelho vai voltar ao valor de face no vencimento.

Riscos reais da marcação a mercado
RiscoQuando se materializaComo mitigar
Vender no prejuízoPrecisa do dinheiro com juro em altaCasar prazo com objetivo; manter reserva em Selic
Pânico de extratoVer valor de mercado negativoEntender que a taxa contratada vale no vencimento
Descasamento de prazoComprar título longo para objetivo curtoEscolher vencimento ≤ horizonte do dinheiro
O ceticismo de Sagan aplicado ao seu extrato: desconfie tanto do “renda fixa nunca perde” quanto do “olha, deu prejuízo, é furada”. Ambas as frases ignoram a única variável que decide o resultado — se você vai ou não vender antes do vencimento. A afirmação honesta é mais chata e mais útil: o resultado depende do prazo que você consegue respeitar, e isso você define antes de comprar.

Perguntas frequentes

Meu Tesouro Direto aparece com prejuízo. Perdi dinheiro?

Só se você vender agora. O valor negativo no extrato é o preço de mercado do dia — quanto o título valeria numa venda antecipada. Se você carregar até o vencimento, recebe a rentabilidade contratada na compra, independentemente das oscilações no meio do caminho.

Qual título do Tesouro não sofre marcação a mercado?

O Tesouro Selic (pós-fixado) é o que praticamente não marca — seu preço acompanha a taxa Selic e quase não descola do valor investido. Por isso é o preferido para reserva de emergência. Prefixados e IPCA+ marcam, e quanto mais longo o vencimento, mais forte a oscilação.

Por que o preço sobe quando o juro cai?

Porque o seu título trava uma taxa fixa. Quando o juro de mercado cai, os títulos novos passam a pagar menos, e o seu — que rende mais — fica mais valioso. Compradores pagam mais por ele, e o preço de mercado sobe. É a relação inversa entre preço e taxa.

Vale a pena vender antes do vencimento para lucrar com a queda dos juros?

Pode valer, se você comprou um título longo travando taxa alta e o juro caiu depois — a venda antecipada realiza o ganho de capital de uma vez. Mas é uma aposta direcional: depende de o juro efetivamente cair e de você ter disciplina para vender no momento certo. Não é garantia; é estratégia com risco.

O que é duration, em uma frase?

É o prazo médio, em anos, em que você recebe o dinheiro do título — e funciona como um multiplicador da oscilação: quanto maior a duration, mais o preço se move a cada variação de taxa. Título longo tem duration alta e balança muito; título curto tem duration baixa e balança pouco.

Veredito

Marcação a mercado não é uma armadilha do Tesouro Direto — é o preço da liquidez que ele te oferece de graça. O erro nunca está no mecanismo; está em comprar um título cujo prazo você não consegue respeitar, e depois ser forçado a vender no momento errado. Quem entende isso passa a ler o extrato com calma: o número vermelho num prefixado longo, em plena queda de juros, é a valorização que você poderia realizar — não um prejuízo que te aconteceu.

A prática que resolve quase tudo é anterior à compra e sem glamour: mantenha a reserva de emergência em Tesouro Selic, que não marca, e escolha o vencimento dos títulos longos de acordo com objetivos datados que você não vai precisar tocar antes. Feito isso, a marcação a mercado deixa de ser fonte de ansiedade e vira o que sempre foi — uma informação diária sobre um preço que só importa no dia em que você decidir vender. E essa data, ao contrário do juro, está inteiramente nas suas mãos.

Verificação: taxa Selic meta vigente confirmada no Banco Central (série SGS 432) na data de publicação e servida dinamicamente pelo shortcode de taxas. Mecânica de marcação a mercado, recompra diária e valor de face no vencimento conforme regras do Tesouro Direto/Tesouro Nacional. Valores de preço, duration e variação percentual são ilustrativos, para demonstrar a relação, e não correspondem a um título específico numa data específica — os números reais estão na página “Preços e Taxas dos Títulos” do Tesouro Direto no dia da consulta.

FONTES:

  • Tesouro Nacional / Tesouro Direto — regras de recompra diária, marcação a mercado, valor de face no vencimento e página “Preços e Taxas dos Títulos”: tesourodireto.com.br. Preços, taxas e durations exatas por título mudam diariamente e devem ser consultados na página oficial no dia.
  • Banco Central do Brasil — Selic meta vigente, série SGS 432 (valor 14,25 confirmado na consulta de jul/2026; artigo usa shortcode dinâmico 14,25%, não crava número): bcb.gov.br/controleinflacao/taxaselic.
  • Conceito de duration e relação inversa preço × taxa — identidade financeira padrão de precificação de títulos de renda fixa (canon consolidado; não é dado datado).