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Investimentos

Preço justo pelo método Graham: a fórmula √(22,5×LPA×VPA) e seus limites

A fórmula de Graham calcula o preço justo pela raiz de 22,5 × LPA × VPA. Entenda o que ela mede, como aplicar com exemplos reais e quando o modelo não funciona.

Este conteúdo é informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.

Preço justo não é o preço que o mercado paga hoje. É uma estimativa do que uma empresa vale com base em fundamentos verificáveis — lucro real e patrimônio real. Benjamin Graham formalizou isso em uma fórmula simples: Preço Justo = √(22,5 × LPA × VPA). O mérito dela não está na precisão, que ela não tem, mas na disciplina: obriga o investidor a olhar para dentro da empresa antes de olhar para a tela de cotações. Esta peça explica de onde vem a fórmula, como calcular na prática usando dados reais de um ativo brasileiro, e — o que importa tanto quanto o cálculo — quando o modelo não deve ser usado.

Benjamin Graham e a origem do método

A fórmula aplicada — exemplo ilustrativo (substitua pelos números reais da empresa: LPA e VPA do último balanço).
ComponenteValor (exemplo)
LPA — lucro por açãoR$ 5,00
VPA — valor patrimonial por açãoR$ 30,00
Cálculo√(22,5 × 5,00 × 30,00) = √3.375
Preço justo Graham≈ R$ 58,09

Graham nasceu em 1894 e passou boa parte da carreira tentando resolver um problema concreto: como distinguir empresas baratas de empresas ruins. Depois do crash de 1929, que ele viveu na pele, ficou claro que o mercado era capaz de precificar ativos de forma completamente descolada da realidade por longos períodos. A resposta de Graham foi metodológica: em vez de tentar prever o que o mercado faria, concentrar-se no que a empresa valia de fato.

O livro O Investidor Inteligente, publicado em 1949, sistematizou essa visão. O site tem uma resenha completa do livro para quem quiser a fonte primária. O ponto central é o conceito de margem de segurança: comprar com desconto suficiente sobre o valor intrínseco para que, mesmo que o cálculo esteja errado, o investidor ainda saia ileso. Não é otimismo. É ceticismo aplicado à compra de ativos.

Warren Buffett foi aluno de Graham na Columbia e, durante anos, aplicou literalmente esse método. Com o tempo, Buffett incorporou a visão qualitativa de Charlie Munger — empresas com vantagens competitivas duráveis podem merecer múltiplos maiores do que Graham aceitaria. Mas o ponto de partida continua sendo o mesmo: entender o que a empresa vale antes de perguntar o que o mercado cobra por ela.

A fórmula: de onde vem o 22,5

A fórmula que se tornou referência para o cálculo do preço justo pelo método Graham é:

Preço Justo = √(22,5 × LPA × VPA)

Antes de usar qualquer fórmula, convém saber o que ela está tentando medir.

LPA — Lucro por Ação é o lucro líquido da empresa dividido pelo número de ações em circulação. Se uma empresa lucrou R$ 1 bilhão e tem 500 milhões de ações, o LPA é R$ 2,00. Esse número aparece nos demonstrativos financeiros e é reportado todo trimestre.

VPA — Valor Patrimonial por Ação é o patrimônio líquido da empresa dividido pelo número de ações. Representa o valor contábil: o que sobrou para os acionistas depois de pagar todas as dívidas. Se o patrimônio líquido é R$ 2 bilhões e há 500 milhões de ações, o VPA é R$ 4,00.

O número 22,5 não é arbitrário. Graham trabalhava com dois limites que considerava razoáveis para um investimento defensivo: P/L máximo de 15 (você não paga mais que 15 anos de lucro pela empresa) e P/VP máximo de 1,5 (você não paga mais que 1,5 vez o valor patrimonial). Multiplicando os dois: 15 × 1,5 = 22,5.

A raiz quadrada entra porque o produto LPA × VPA tem unidade de “R$ ao quadrado”, e queremos um resultado em reais. A raiz normaliza a conta para que o resultado seja comparável ao preço da ação.

Em termos práticos: se o preço atual está abaixo do preço justo calculado pela fórmula, o ativo estaria barato pelos critérios de Graham. Se está acima, estaria caro — ou pelo menos fora dos parâmetros que ele considerava seguros.

Como calcular na prática: exemplo com BBSE3

Para ilustrar o método, vou usar dados reais de BB Seguridade (BBSE3), buscados em duas fontes públicas — Fundamentus e Status Invest — em 22/06/2026, referentes ao balanço encerrado em 31/03/2026.

Fonte 1 — Fundamentus (22/06/2026):

  • LPA: R$ 4,73
  • VPA: R$ 6,51
  • P/L: 8,22 | P/VP: 5,97 | Cotação: R$ 38,90

Fonte 2 — Status Invest (22/06/2026):

  • LPA: R$ 4,74
  • VPA: R$ 6,51
  • P/L: 8,12 | P/VP: 5,91 | Cotação: R$ 38,45

Os valores convergem. Vou usar LPA = R$ 4,73 e VPA = R$ 6,51 (Fundamentus).

Cálculo passo a passo:

  1. 22,5 × LPA × VPA = 22,5 × 4,73 × 6,51
  2. 4,73 × 6,51 = 30,79
  3. 22,5 × 30,79 = 692,78
  4. √692,78 ≈ R$ 26,32

BBSE3 está cotada em torno de R$ 38–39. Pelo critério Graham, o preço justo seria R$ 26,32 — o ativo estaria sendo negociado com ágio de aproximadamente 47% sobre o valor Graham.

Isso significa que BBSE3 é um mau investimento? Não necessariamente. E esse é exatamente o ponto onde a fórmula precisa ser lida com cuidado.

O que a fórmula diz — e o que ela não diz

Graham criou a fórmula como uma ferramenta de filtro, não de diagnóstico definitivo. A lógica é simples: se um ativo está barato pelo método Graham, você tem uma margem de segurança real — comprou abaixo do valor contábil ajustado por lucro. Se está caro, qualquer erro de execução ou deterioração de resultado te expõe mais.

No caso de BBSE3, o resultado de R$ 26 reflete um fato real: o patrimônio da empresa é baixo em relação ao lucro que ela gera. O ROE (Retorno sobre Patrimônio) de BBSE3 fica em torno de 72% ao ano. Uma empresa que gera 72% de retorno sobre o próprio patrimônio naturalmente vai ter um VPA pequeno e um múltiplo P/VP alto — o mercado paga prêmio pela qualidade do retorno, não pelo tamanho do balanço.

Graham desenvolveu a fórmula pensando em empresas industriais com patrimônio tangível relevante: fábricas, estoques, equipamentos. Numa seguradora ou empresa de serviços financeiros, o “patrimônio” contábil é uma fração pequena da capacidade de geração de caixa. O VPA baixo não é sinal de fraqueza — é característica estrutural do modelo de negócio.

A lição aqui não é “ignore a fórmula”. É: entenda o que ela mede antes de aplicar o resultado mecanicamente. Carl Sagan escreveu que ferramentas extraordinárias exigem ceticismo extraordinário. Uma fórmula de duas variáveis não captura tudo o que uma empresa é.

Quando a fórmula funciona melhor — e quando não funciona

Graham foi explícito sobre o escopo do método. A fórmula foi projetada para o investidor defensivo — aquele que quer filtrar rapidamente uma lista de ações em busca de candidatos obviamente baratos, sem mergulhar em análise qualitativa profunda. Funciona bem em cenários específicos:

Quando funciona razoavelmente:

  • Empresas maduras, com lucro e patrimônio estáveis há vários anos
  • Setores com ativo tangível relevante: siderurgia, papel e celulose, utilities, parte do varejo
  • Momentos de estresse de mercado, quando o preço cai para bem abaixo do valor contábil por razões de pânico
  • Triagem inicial de uma lista longa — eliminar os candidatos obviamente caros antes de analisar os demais

Quando a fórmula não funciona ou distorce:

Empresas com prejuízo: LPA negativo resulta em raiz quadrada de número negativo — matematicamente indefinida. Não tem como calcular. Qualquer empresa em fase de investimento, startup listada, ou empresa em reestruturação cai nessa categoria.

Crescimento alto: Uma empresa que cresce lucro a 30% ao ano vai ter LPA atual baixo, mas o valor real está no crescimento futuro — que a fórmula ignora completamente. Graham criou a fórmula para o investidor defensivo, não para quem busca crescimento. Usar o método em empresas de tecnologia ou consumo em expansão acelerada resulta em “preços justos” grotescamente baixos.

Setor financeiro e seguradoras: Como mostrado no exemplo de BBSE3, empresas com modelo asset-light e ROE muito alto têm patrimônio estruturalmente pequeno. O P/VP alto não indica bolha — indica que o mercado paga pelo fluxo de caixa, não pelo balanço. A fórmula Graham subestima sistematicamente essas empresas.

Cenário macroeconômico diferente: Graham desenvolveu a fórmula nos anos 1970, num ambiente de inflação alta e juros elevados nos EUA. Os parâmetros (P/L 15, P/VP 1,5) faziam sentido naquele contexto. Com a Selic em 14,25%% ao ano, o custo de oportunidade do investidor brasileiro é diferente. Um P/L de 15 implica earnings yield de ~6,7% — razoável quando os juros são baixos, questionável quando a renda fixa oferece mais que isso sem risco de mercado.

Isso não invalida o método. Significa que os parâmetros precisam ser contextualizados, não aplicados como verdades universais.

Graham e Bazin: ferramentas complementares

O método Bazin calcula o preço-teto de uma ação com base no dividendo esperado: Preço Teto = Dividendo por Ação ÷ 0,06. A lógica é diferente da de Graham — Bazin olha para o retorno em dividendos que o investidor vai receber, enquanto Graham olha para o valor intrínseco baseado em lucro e patrimônio.

Os dois métodos têm origens e pressupostos distintos, mas podem ser usados juntos como camadas de filtro:

  • Graham filtra pelo valor: o ativo está barato em relação ao que a empresa vale contabilmente e gera de lucro?
  • Bazin filtra pelo rendimento: o ativo está pagando dividendos suficientes para justificar o preço atual?

Um ativo que passa nos dois filtros simultaneamente — preço abaixo do valor Graham e abaixo do preço teto Bazin — tem, em tese, dupla margem de segurança: está barato pelo lucro/patrimônio e está pagando bem em dividendos. Não é garantia de retorno, mas é sinal de que o mercado não está precificando exuberância.

Para empresas que pagam dividendos consistentes em setores estáveis, os dois métodos juntos são mais informativos do que qualquer um isolado. Para empresas de crescimento que reinvestem resultado, nenhum dos dois é a ferramenta certa — outros modelos (DCF, múltiplos de crescimento) se encaixam melhor.

P/L e P/VP como proxies rápidos

Nem todo investidor quer calcular raiz quadrada. Para quem quer uma triagem rápida sem sair do screener, os múltiplos P/L e P/VP já entregam boa parte da informação que a fórmula Graham sintetiza.

P/L (Preço/Lucro): quanto o mercado paga por cada real de lucro anual da empresa. Graham considerava P/L acima de 15 como zona de risco para o investidor defensivo. Um P/L de 10 significa que você recupera o investimento em 10 anos de lucro constante — se o lucro for realmente constante.

P/VP (Preço/Valor Patrimonial): quanto o mercado paga em relação ao patrimônio líquido. Graham considerava P/VP acima de 1,5 como sinal de alerta. P/VP abaixo de 1 significa que você está comprando a empresa por menos do que ela vale contabilmente — o que pode ser uma oportunidade ou um sinal de que o patrimônio tem problemas ocultos.

A regra combinada de Graham era: P/L × P/VP ≤ 22,5. Essa é exatamente a fórmula, reescrita em termos de múltiplos. Se quiser verificar rapidamente se um ativo passa no teste sem calcular a raiz, basta multiplicar os dois múltiplos: se o produto for menor que 22,5, o ativo está dentro dos parâmetros Graham.

No caso de BBSE3: P/L ≈ 8,2 × P/VP ≈ 6,0 = 49,2. Bem acima de 22,5 — confirma que BBSE3 não passa no filtro Graham, o que é coerente com o resultado do cálculo.

Essa verificação rápida é útil para uma lista de 30 ou 40 ações. Os que passam no produto de múltiplos merecem análise mais cuidadosa. Os que não passam podem ser boas empresas com preço justificado por qualidade — mas não são candidatos Graham.

A fórmula como ponto de partida, não de chegada

O erro mais comum com o método Graham é usá-lo como oráculo: calcular o preço justo, comparar com a cotação, e decidir comprar ou não comprar mecanicamente. Graham nunca sugeriu isso. A fórmula é um filtro de entrada — serve para separar candidatos óbvios de empresas que exigem ceticismo adicional.

O que vem depois do filtro é análise qualitativa: a empresa está gerando caixa de verdade ou manipulando resultado? O lucro é recorrente? O setor tem vantagem competitiva defensável? A gestão é competente e honesta? Essas perguntas não têm resposta em nenhuma fórmula.

A margem de segurança de Graham não é o desconto calculado pela raiz quadrada. É a combinação de preço baixo em relação ao valor + qualidade do negócio que sustenta esse valor + capacidade de esperar o mercado reconhecer a discrepância. Os três precisam estar presentes.

Para quem está montando uma carteira de renda variável do zero, a trilha começa pelo hub da guia de renda variável, que organiza os conceitos na sequência correta. O preço médio — como reduzir o custo médio de posição — tem uma explicação detalhada em preço médio de ações. E o método Bazin, que complementa Graham, está em preço teto pelo método Bazin.

A fórmula de Graham tem quase 50 anos. Sobreviveu porque captura algo real: pagar muito caro por qualquer ativo aumenta o risco de perda permanente de capital. O número que ela produz pode estar errado. O princípio por trás dele, não.