Busque por termos como bitcoin, cartão ou VPN.
Resenhas

O Mais Importante para o Investidor (Howard Marks): resenha crítica e aplicação ao Brasil

Resenha crítica do livro de Howard Marks: o que aplica no Brasil de Selic alta, o que é abstrato demais, e por que ler os memorandos da Oaktree de graça antes de comprar.

Resenha crítica independente. As ideias de Howard Marks são apresentadas com fidelidade aos memorandos públicos que ele escreve na Oaktree e que deram origem ao livro; a interpretação e a aplicação ao mercado brasileiro são autorais. Esta página contém links de afiliado da Amazon (identificados com rel="sponsored"): a eventual comissão não influencia o veredito desta resenha. Conteúdo educativo, sem recomendação personalizada de investimento. Selic em 14,25% ao ano; indicadores e regras tributárias citados refletem junho de 2026. Consulte um profissional habilitado antes de qualquer decisão patrimonial.

Há um detalhe sobre este livro que quase nenhuma resenha conta, e que muda a forma de lê-lo: quase tudo o que está nele já existia de graça antes de virar livro. O Mais Importante para o Investidor nasceu dos memorandos que Howard Marks escreve aos clientes da Oaktree Capital desde 1990 — textos públicos, datados, disponíveis até hoje no site da gestora sem custo. O próprio título sai de um memorando de julho de 2003, em que Marks percebeu que vivia dizendo aos clientes “a coisa mais importante é X” — e, dez minutos depois, “a coisa mais importante é Y”. Resolveu então reunir num lugar só os preceitos que guiam a casa. Acabou listando dezoito “coisas mais importantes”.

Saber disso não diminui o livro. Faz o oposto: convida o leitor a tratar a obra como ela merece — não como revelação de um guru, mas como a sistematização madura de um investidor que pensou em voz alta, por escrito, durante décadas. É exatamente o tipo de material que recompensa o ceticismo. Esta resenha trata do que esse material entrega de fato a quem investe num país de Selic em 14,25% ao ano, e do que ele cobra, do que omite e do que simplesmente não cabe na realidade brasileira.

O Mais Importante para o Investidor: Lições de um Gênio do Mercado Financeiro

Autor: Howard Marks · Tradução: Daniel Moreira Miranda · Prefácio: Henrique Bredda · Editora: Edipro, 2020 · Páginas: 208 · ISBN: 978-6556600208 · Original: The Most Important Thing: Uncommon Sense for the Thoughtful Investor (Columbia University Press, 2011) · Material-base: seleção dos memorandos públicos de Howard Marks na Oaktree, disponíveis em oaktreecapital.com/insights/memos.

Um livro que começou como memorando

A versão americana, publicada pela Columbia University Press em 2011, organiza aquela lista de preceitos em capítulos temáticos, cada um dedicado a uma das “coisas mais importantes”. A edição brasileira da Edipro, de 2020, traz tradução de Daniel Moreira Miranda e prefácio de Henrique Bredda, gestor da Alaska — um endosso local que ajuda a explicar por que o livro circulou tanto entre investidores pessoa física no Brasil.

O formato tem uma vantagem e uma armadilha. A vantagem é que cada capítulo gira em torno de uma ideia só, desenvolvida com calma e exemplos. A armadilha é a repetição: como o material vem de memorandos escritos em anos diferentes, alguns argumentos reaparecem com roupagem nova. Não é descuido editorial — é o mesmo princípio aplicado a contextos distintos. Mas o leitor apressado sente que está lendo a mesma coisa duas vezes, e às vezes está mesmo.

As ideias que sustentam o livro

Pensamento de segundo nível. É a porta de entrada da obra e a melhor coisa nela. O pensamento de primeiro nível diz: “é uma boa empresa, vou comprar”. O de segundo nível diz: “é uma boa empresa, mas todo mundo acha que é ótima, então está cara — quem comprar agora paga pela perfeição”. Marks insiste num ponto incômodo: como qualquer pessoa minimamente inteligente consegue pensar no primeiro nível, pensar no primeiro nível não pode, por definição, gerar retorno acima da média. Para ganhar do mercado é preciso pensar diferente do consenso e estar certo — e as duas coisas juntas são raras. É uma ideia desconfortável porque desmonta a sensação de que basta escolher empresas boas.

Risco é a probabilidade de perda permanente, não a volatilidade. Talvez seja a tese mais valiosa do livro, e também a que mais briga com o que se ensina nas faculdades. A teoria financeira clássica mede risco pela oscilação do preço (o desvio-padrão). Marks recusa isso. Para ele, risco de verdade é a chance de perder o capital de forma definitiva — e essa chance, ironicamente, costuma ser maior justamente quando os preços oscilam pouco e todo mundo se sente seguro, no topo da euforia. Uma ação que cai 30% e se recupera não causou perda permanente a quem não vendeu; uma empresa “estável” que quebra, sim. A distinção parece acadêmica até o leitor perceber que ela reorganiza toda a decisão de quando vender no susto.

Ciclos e o pêndulo. Marks volta obsessivamente à inevitabilidade dos ciclos. Já num memorando de 1991 ele comparava o humor do mercado a um pêndulo: na média ele fica no centro, mas passa pouquíssimo tempo ali — vive oscilando entre o otimismo exagerado e o pessimismo exagerado, e quando chega perto de um extremo é questão de tempo até voltar. O erro clássico, diz ele, é extrapolar a tendência: achar que quem está bem vai estar bem para sempre, e vice-versa. Quem entende isso para de comprar no topo achando que é piso.

“Não dá para prever, dá para se preparar”. É o título de um de seus memorandos mais conhecidos, de 2001, e resume a postura da casa. Marks se declara aberta e repetidamente filiado à “escola do não sei”: ele não acredita que alguém preveja consistentemente o rumo da economia ou dos juros. A consequência prática não é paralisia — é construir uma carteira que sobreviva a vários futuros possíveis em vez de apostar num só. Preparar-se, e não adivinhar.

Margem de segurança e postura defensiva. Aqui Marks bebe de Benjamin Graham e de Warren Buffett sem disfarçar. Comprar com margem de segurança significa pagar um preço tão abaixo do valor que, mesmo se a análise estiver parcialmente errada, ainda sobra proteção. A postura defensiva que ele defende é quase um lema: evite os perdedores — os vencedores se cuidam sozinhos. No memorando original de julho de 2003 — a semente do livro —, ele formula a base dessa disciplina numa frase que vale pelo capítulo inteiro:

“No asset is so good that it can’t become a bad investment if bought at too high a price. And there are few assets so bad that they can’t be a good investment when bought cheap enough.”

Howard Marks · memorando “The Most Important Thing”, julho de 2003

Em bom português: nenhum ativo é tão bom que não vire mau negócio se comprado caro demais, e quase nenhum é tão ruim que não vire bom negócio se comprado barato o suficiente. É a tese que sustenta o livro inteiro.

Sorte e aleatoriedade. Num mercado dominado por discurso de mérito, Marks tem a honestidade rara de insistir que o resultado de um ano diz pouco sobre a competência de quem o produziu. Ele separa de propósito a qualidade da decisão da qualidade do resultado: uma decisão boa pode dar errado por azar, e uma decisão temerária pode dar certo por sorte. Por isso desconfia de quem se gaba de um ano excelente — número isolado não distingue talento de acaso.

Contrarianismo disciplinado. A última peça, e a mais difícil de praticar. Só ativos impopulares ficam genuinamente baratos; os queridos do momento já estão caros. Logo, a pechincha mora onde ninguém quer olhar. Mas Marks é cuidadoso: ser contrário não é ser do contra. Comprar o que caiu só porque caiu é tão tolo quanto seguir a manada. O contrarianismo dele é disciplinado — exige análise de valor por trás da impopularidade, não apenas coragem de comprar o que todos rejeitam.

O que envelhece bem

Quinze anos depois da edição original, o miolo do livro não enrugou. A distinção entre preço e valor, a recusa em definir risco como volatilidade e a desconfiança de previsões macroeconômicas só ficaram mais relevantes num mundo que produziu, desde 2011, uma pandemia, uma guerra na Europa e dois choques de juros que nenhum estrategista cravou de antemão. Marks acertou na humildade epistemológica: quem passou a década inteira posicionado para um cenário único apanhou; quem montou carteira para sobreviver a vários se saiu melhor.

Envelhece bem também o tom. Marks não promete enriquecimento, não vende fórmula de cinco passos, não tem gráfico de pizza salvador. Ele escreve como quem conversa com alguém igualmente adulto — e isso, num gênero saturado de promessa fácil, é quase subversivo. O ceticismo metódico que ele aplica às próprias certezas é o que mais aproxima o livro de uma postura científica de verdade.

O que é abstrato demais

Agora a parte que o culto a Marks não gosta de ouvir. O livro foi escrito por um gestor de crédito distressed que move bilhões em mercados institucionais, e isso transparece. Boa parte dos conselhos pressupõe acesso, escala e tempo que o investidor pessoa física simplesmente não tem.

“Compre quando todos vendem em pânico” é fácil de aplaudir e dificílimo de executar quando o capital em jogo é a poupança de uma vida e não o fundo de um terceiro. Marks tem um time de analistas, mandato de longo prazo e clientes que aceitam anos de paciência; o leitor comum tem medo, conta para pagar e uma timeline de rede social gritando o contrário a cada queda. A psicologia que ele descreve é precisa, mas a estrutura que permite agir sobre ela é dele, não necessariamente de quem lê.

O livro também é deliberadamente vago no operacional. Marks quase nunca diz como estimar valor intrínseco, qual múltiplo é caro, quando exatamente vender. Ele trata disso como arte, não ciência — o que é honesto, mas deixa o iniciante sem chão. Quem procura método replicável de análise de balanço encontra mais em Graham. Marks dá a moldura mental; não dá a régua. E uma moldura sem régua, para quem está começando, às vezes vira só uma frase bonita que não se sabe usar.

Aplicando Marks num Brasil de juro alto

É aqui que a leitura local pesa, porque Marks raciocina com juro americano historicamente baixo e mercado profundo. O Brasil de junho de 2026 é outro animal.

A Selic muda o ponto de partida. Com a Selic em 14,25% ao ano e o CDI em torno de 14,40%, o “custo de oportunidade” de toda decisão de risco no Brasil é altíssimo. A teoria de Marks segue valendo — pagar barato continua melhor que pagar caro —, mas o piso contra o qual a ação precisa competir é uma renda fixa que paga, em termos reais, o que poucos países desenvolvidos oferecem. O pensamento de segundo nível brasileiro inclui uma pergunta que Marks não precisava fazer: esta ação me paga o suficiente acima do Tesouro para justificar o risco? Quem quiser ver essa conta feita com números recentes pode olhar a nossa peça sobre o efeito bola de neve em dividendos contra a renda fixa, que mostra em que cenários cada lado ganha.

Renda variável num mercado estreito. Marks elogia a busca por ineficiências — ativos mal precificados onde a informação não circula bem. O paradoxo brasileiro é que a B3 é pequena e concentrada, o que cria ineficiências (menos olhos analisando cada papel), mas também reduz o universo de escolha a algumas dezenas de empresas com liquidez real. O contrarianismo disciplinado de Marks é mais viável aqui do que num mercado hipereficiente — desde que o investidor faça o trabalho de valor que ele exige, e não confunda barato com bom.

FIIs e o pêndulo. Os fundos imobiliários brasileiros são um laboratório quase didático das ideias de Marks. Negociam com ágio ou deságio sobre o valor patrimonial conforme o humor do mercado oscila — exatamente o pêndulo que ele descreve. Comprar cota de FII de tijolo de boa gestão quando o pessimismo com juros empurra o preço bem abaixo do valor dos imóveis é pensamento de segundo nível aplicado ao concreto. Marks não fala de FII nenhuma vez no livro; o arcabouço dele, no entanto, encaixa no instrumento como uma luva.

Onde Marks encontra Sagan e Buffett

Faz parte do trabalho de uma resenha aqui dizer onde o autor se encaixa no quadro de referências da casa. Marks ocupa um lugar incomum: ele liga duas pontas que costumam viver separadas.

Com Sagan, a afinidade é de método. A insistência de Marks em separar decisão de resultado, em desconfiar de quem prevê com confiança e em tratar o sucesso de um ano como amostra pequena demais para concluir qualquer coisa é, no fundo, ceticismo científico aplicado a dinheiro. Sagan pediria evidência antes de acreditar; Marks pede o mesmo antes de comprar. Os dois compartilham a desconfiança saudável das próprias certezas — e Marks, coerente, aplica essa desconfiança inclusive a si mesmo.

Com Buffett, a herança é direta e assumida: margem de segurança, valor intrínseco, paciência, temperamento acima de QI. A diferença de timbre é que Buffett fala como dono de empresas que pretende segurar para sempre, enquanto Marks fala como gestor de ciclos que compra na baixa e vende na alta. Lidos juntos — e vale ler junto com a nossa resenha de The Essays of Warren Buffett —, um ensina a escolher o que ter, o outro ensina a aguentar o caminho. As outras duas referências da casa entram só de raspão aqui, e tudo bem: forçar Housel ou Frankl numa obra que é essencialmente sobre disciplina de mercado seria encaixe artificial.

Veredito

Vale a leitura — com uma ressalva honesta sobre o que você é capaz de fazer com ela. Como sistematização da forma de pensar risco, ciclo e preço, é um dos melhores livros do gênero, e a tradução da Edipro cumpre bem o papel de trazer o argumento ao português.

Mas leia sabendo o que ele é: uma moldura mental, não um manual de operação. Marks vai deixar você mais cético, mais paciente e menos suscetível a comprar topo — o que já é muito. Não vai te dizer qual ação comprar, nem como calcular o preço justo dela. Para isso, Graham continua sendo o ponto de partida técnico.

E há um atalho que o próprio Marks ofereceria: os memorandos que deram origem ao livro estão de graça no site da Oaktree. Quem quiser provar a voz antes de comprar a obra pode começar por ali — recomendar a fonte gratuita antes do livro pago é o tipo de honestidade que combina com o que Marks ensina.

Onde comprar · link de afiliado

O Mais Importante para o Investidor — Howard Marks (Edipro, capa dura)

Tradução de Daniel Moreira Miranda · prefácio de Henrique Bredda · 208 páginas.

Ver capa dura na Amazon Versão Kindle

A compra por estes links rende uma comissão à casa, identificada conforme política. O veredito acima foi escrito antes de os links existirem — e seria o mesmo sem eles. Detalhes na página de Divulgações.

Próximos passos honestos para o leitor

  • Ler os memorandos originais de graça. Estão em oaktreecapital.com/insights/memos, datados e em ordem cronológica. Comece pelo de 2003 que batiza o livro e pelo de 2001, “não dá para prever, dá para se preparar” — dá para sentir a voz antes de gastar com a edição impressa.
  • Traduzir “risco” para a sua realidade. Antes de aplicar o conceito de perda permanente, defina o que isso significa no seu caso: prazo do dinheiro, se você venderia numa queda de 30% e por quê. O livro descreve o pêndulo; o gatilho de venda no susto é seu.
  • Datar a Selic da decisão. Em junho de 2026, com a Selic em 14,25%, o prêmio que uma ação precisa pagar para valer mais que a renda fixa é alto. Refaça essa comparação a cada reunião do Copom — ela muda o veredito sobre qualquer ativo de risco.
  • Não comprar nada lendo uma resenha. Esta página é educativa. Decisão patrimonial individual pede profissional habilitado — assessor com certificação, planejador CFP, contador para a parte tributária. A casa discute método; a decisão é sua, com quem tem credencial para aconselhar.

Marks fecha quase todo memorando lembrando que investir bem é, antes de tudo, não se enganar — sobre o mercado e sobre si mesmo. É um livro que cobra do leitor exatamente isso: a disposição de desconfiar das próprias convicções na hora em que elas parecem mais certas. Quem topa esse desconforto sai da leitura com algo que vale mais que uma carteira pronta — sai com um filtro melhor para tudo o que vier a comprar depois.