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Resenhas

Em Busca de Sentido (Viktor Frankl, 1946): resenha crítica e a âncora moral para decisões financeiras

Resenha crítica independente de uma obra existencial. As ideias do autor são apresentadas com fidelidade; as aplicações ao contexto brasileiro são autorais. Esta página contém link de afiliado para a edição Vozes na Amazon (identificado); a comissão entra depois da opinião, nunca a escreve.

Resenha crítica independente de uma obra existencial. As ideias do autor são apresentadas com fidelidade; as aplicações ao contexto brasileiro são autorais. Esta página contém link de afiliado para a edição Vozes na Amazon (identificado); a comissão entra depois da opinião, nunca a escreve.

Há uma passagem em Em Busca de Sentido que costumo lembrar antes de qualquer outra. Frankl descreve homens que andavam pelas barracas dos campos, consolando outros, dando o último pedaço de pão. Eram poucos — ele faz questão de dizer que eram poucos. Mas existiam. E a existência deles serve a Frankl para uma afirmação que o livro inteiro depois sustenta: tudo se pode tirar de um ser humano, menos a escolha da atitude diante do que lhe é feito. É uma frase escrita por alguém que perdeu o pai em Theresienstadt, a mãe e o irmão em Auschwitz, a esposa em Bergen-Belsen, e que voltou de Türkheim em abril de 1945 para descobrir, um por um, cada um desses fatos. Não é frase de palco. É o que sobrou depois que todo o resto foi tirado.

Este é o último livro das quatro referências permanentes da casa a ganhar resenha — depois de Housel, Buffett e Sagan, faltava Frankl. Faltava o mais difícil de tratar. Frankl entrou na bússola do Leitura Singular ocupando a cadeira da responsabilidade individual, e o problema da casa não é convencer ninguém de que ele importa: é resenhar um livro existencial sobre o Holocausto sem rebaixá-lo a parábola motivacional, e ao mesmo tempo dizer com franqueza por que um portal de finanças o trata como âncora moral. Tentei abaixo.

Ficha rápida do livro

Frankl escreveu o original em nove dias, no outono de 1945, poucos meses depois da libertação. Foi publicado em alemão em 1946 por uma pequena editora em Viena com o título Ein Psychologe erlebt das Konzentrationslager — “Um psicólogo experimenta o campo de concentração”. Edições alemãs posteriores acrescentaram o prefixo …trotzdem Ja zum Leben sagen, “…ainda assim dizer sim à vida”, verso tirado de uma canção composta por Friedrich Löhner-Beda em Buchenwald. A obra ultrapassou em pouco tempo o gênero da memória de campo: virou também o livro pelo qual a logoterapia, a escola de psicoterapia que Frankl já vinha esboçando antes da guerra, encontrou seu público.

A edição que cito é a da Editora Vozes, em parceria com a Sinodal, tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline a partir do alemão — ISBN 978‑85‑326‑0626‑6. É a edição mais lida no Brasil e está na 68ª impressão em 2025. Estrutura: uma primeira parte longa, narrativa, com a experiência do campo dividida em três fases (chegada, vida diária, libertação); uma segunda parte mais curta, técnica, em que Frankl apresenta a logoterapia “em poucas palavras”. Em torno de 200 páginas, leitura de uma tarde longa.

Quem é o autor que escreve

Viktor Emil Frankl nasceu em Viena em 1905 e morreu em 1997. Era médico — neurologista e psiquiatra com cátedra na Universidade de Viena. Antes da deportação, já havia organizado, na Viena dos anos 30, um programa de aconselhamento gratuito para estudantes em crise, com colapso aparente de suicídios entre adolescentes vienenses na semana de divulgação de notas. Já havia, portanto, uma trajetória clínica de quase duas décadas quando, em setembro de 1942, ele, a esposa Tilly Grosser e os pais foram deportados.

O Instituto Viktor Frankl de Viena e o próprio arquivo biográfico da família registram a cronologia: Theresienstadt primeiro, onde o pai morre de exaustão em meio ano; em outubro de 1944, transporte para Auschwitz, onde mãe e irmão são assassinados; depois Kaufering III, subcampo de Dachau na Baviera, e por fim Türkheim, também subcampo de Dachau, onde Frankl contrai febre tifoide e atravessa as noites reescrevendo, em tiras de papel furtadas da administração, o manuscrito que os alemães lhe haviam confiscado na chegada — um livro técnico sobre logoterapia, depois publicado como Ärztliche Seelsorge. Türkheim é libertado pelas tropas americanas em 27 de abril de 1945. A esposa, Tilly, havia sido transferida para Bergen-Belsen e morreu lá. Frankl só soube ao voltar.

Tudo isso entra na pergunta de quem fala no livro. Frankl não escreve como sobrevivente que organiza uma lição: escreve como psiquiatra observando, à distância profissional possível, o que pode ser visto sobre o ser humano em condições nas quais o normal é não sobrar nada. Há uma distância clínica perceptível na primeira parte — não friolenta, mas exata. Ele relata, por exemplo, a cena em que o trem em que estava se aproxima da plataforma de Auschwitz e os veteranos pedem cigarro com a calma de quem já decidiu que não importa; relata, sem ornamento, a tensão da fila à esquerda ou à direita do oficial das SS; relata o frio, a fome, a desumanização da cabeça raspada e do número tatuado. Mas não pousa o foco principal nesses fatos. Pousa em como o prisioneiro respondia internamente a eles.

A tese — e a frase que Frankl não escreveu

O eixo do livro é a constatação de que, dentre os prisioneiros que Frankl pôde observar, dois homens com biografia equivalente e condição física equivalente respondiam de maneiras radicalmente diferentes ao mesmo conjunto de violências. Um se entregava; outro mantinha alguma forma de vida interior. Não era questão de força, de fé religiosa, de classe social, de cultura. Era — Frankl insiste — uma escolha sobre como ocupar o pequeno espaço de liberdade que sobrava: a postura interna diante do que se sofria.

A formulação mais conhecida está em uma passagem da primeira parte. Cito da tradução Vozes: “Pode-se tirar tudo de uma pessoa, exceto uma coisa: a última das liberdades humanas — a escolha da própria atitude em qualquer conjunto de circunstâncias, a escolha do próprio caminho.” Em inglês, na clássica edição da Beacon Press: “Everything can be taken from a man but one thing: the last of the human freedoms—to choose one’s attitude in any given set of circumstances, to choose one’s own way.”

Aqui cabe uma correção que é mais devida a Frankl do que a esta resenha. Circula como tese central dele uma frase mais limpa, quase de cartaz: “Entre estímulo e resposta há um espaço. Nesse espaço está nosso poder de escolher a resposta. Em nossa resposta está nosso crescimento e nossa liberdade.” O próprio briefing interno desta peça pedia que eu a destacasse. Mas o Instituto Viktor Frankl de Viena declara, em página específica, que a frase não foi encontrada em nenhuma obra do autor. Stephen Covey, que a popularizou em Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes, dizia tê-la lido em um livro de biblioteca cujo título e autor não anotou. Não é de Frankl. É uma síntese alheia, talvez derivada de um artigo de Rollo May de 1963, que veste roupa de Frankl porque parece coerente com ele.

Parece pedantismo apontar isso. Não é. A casa toma de Carl Sagan o método de não citar de memória, e isso vale também — sobretudo — quando a frase apócrifa é melhor do que a verdadeira. A frase verdadeira é menos publicitária. É mais grave. Não fala de um “espaço” abstrato, fala da última das liberdades humanas, em circunstâncias específicas que tornam toda metáfora indecente. Frankl escreveu daquele lugar. O ganho de citá-lo certo é assumir o peso do que ele realmente disse.

A logoterapia em poucas palavras

A segunda parte do livro é onde Frankl apresenta, de forma deliberadamente breve, o método clínico que vinha desenvolvendo desde os anos 30. A logoterapia parte do que ele chama de Wille zum Sinn, “vontade de sentido”: a tese de que o motor central do ser humano não é a busca pelo prazer, como propunha Freud, nem a busca pelo poder, como propunha Adler, e sim a busca por um significado que justifique a própria existência. Quando essa busca emperra, surge o que Frankl chama de “vazio existencial” — uma forma específica de sofrimento que ele identificava, ainda em meados do século XX, como cada vez mais comum nos consultórios.

O que importa de prático no método é o esquema, simples, dos três caminhos pelos quais o sentido pode ser encontrado. O primeiro é criar uma obra ou realizar um ato: o trabalho, a empreitada, o livro escrito, o filho criado, a planta plantada. O segundo é vivenciar algo ou alguém: a experiência da arte, da natureza, do amor — Frankl é um dos autores do século XX que escreveram mais sobriamente sobre amor como conhecimento. O terceiro é o caminho que dá ao livro sua tese mais incômoda: a atitude diante de um sofrimento que não se pode mudar. É a possibilidade que sobra quando os dois primeiros foram fechados pelo destino, e é exatamente a possibilidade que ele viu prisioneiros exercerem nos campos.

A logoterapia se inscreveu depois na história da psicologia como a chamada “terceira escola vienense”, depois da psicanálise de Freud e da psicologia individual de Adler. Tem hoje institutos formadores em vários países, inclusive no Brasil. Não é a parte mais conhecida do livro entre leitores leigos, e isso é uma pena: a primeira parte impressiona porque conta o campo, mas é a segunda que oferece o método que Frankl quis deixar.

Por que isto entra numa casa que escreve sobre dinheiro

A primeira coisa a dizer é o que esta resenha não é. Não é um exercício de transposição barata, no qual o leitor sai do campo de concentração com uma planilha de aportes na cabeça. Frankl não escreveu para isso. Quem reduz o livro a parábola financeira instrumentaliza um material que pede outro tipo de leitura, e contraria o próprio autor — que era estudioso da indústria do otimismo americana e a olhava com desconfiança polida. A casa lê Frankl como âncora moral, não como manual.

Dito isso, há uma razão exata para ele ocupar essa cadeira no quadro editorial. Eu escrevo sobre um sistema financeiro brasileiro que raramente foi pensado para quem vive do próprio trabalho. Cartão de crédito que cobra juros em três dígitos quando o tomador atrasa um mês. Tabela de imposto de renda que ficou anos sem correção pela inflação. Tarifa bancária que aparece nominalmente baixa e some o salário no agregado. Selic alta que favorece quem empresta e pesa sobre quem toma. Tudo isso é descrevível como fato; tudo isso entra em artigos da casa com número e data; nada disso é conspiração — é uma assimetria que existe e merece ser dita sem retórica de palanque.

O risco, em escrever sobre essa assimetria, é o leitor confundir reconhecimento com licença. Reconhecer que o sistema o desfavorece pode virar um modo elegante de não fazer nada. É aqui que Frankl entra. Ele não nega a injustiça do que aconteceu a ele e aos que estavam com ele — e o que aconteceu era infinitamente pior do que o pior boleto bancário. O que ele nega é que a injustiça liberte a pessoa da escolha que ainda lhe cabe. A última das liberdades humanas, no léxico dele, é justamente a que sobra quando todas as outras foram tiradas. Se ela sobrou para os homens que ele descreve nas barracas, sobra para um trabalhador brasileiro de qualquer faixa de renda diante da sua planilha.

O recorte concreto disso na vida financeira é simples e, para mim, decisivo. Dois leitores reconhecem com igual precisão a assimetria do sistema. Um aporta o que cabe, todo mês, durante vinte anos, num veículo simples e barato — Tesouro IPCA, fundo de índice, o que for adequado ao caso. O outro, com a mesma queixa na boca, não aporta. Depois de duas décadas, eles estão em lugares diferentes do mundo. A queixa é a mesma; a peça jogada não é. Frankl, sem nunca ter escrito uma linha sobre finanças brasileiras, dá o nome dessa diferença: ela está na atitude que cada um escolheu diante de um conjunto de circunstâncias que nenhum dos dois escolheu.

Onde o livro não se transporta

O ceticismo da casa exige também marcar os limites. Frankl não escreveu para o problema da poupança brasileira, e há ao menos três pontos em que sua leitura precisa ser cuidada para não virar pretexto.

Primeiro, a desproporção. As circunstâncias de Frankl no campo são, por definição, extremas. Usá-las como termo de comparação cotidiano é desonesto com ele e com quem sofre situações que, embora reais, não são comparáveis ao que ele descreve. Inflação, desemprego, dívida no cartão, doença na família — são fatos que pedem outro vocabulário. A frase “se Frankl conseguiu, você consegue” é a forma motivacional de empobrecer o livro. Frankl resistiria a ela mais do que qualquer leitor.

Segundo, o risco de moralização. A logoterapia foi pensada para ajudar pessoas a encontrar sentido, não para servir de instrumento de julgamento dos que não encontraram. Quando um leitor financeiramente bem situado usa Frankl para sugerir que quem está endividado “simplesmente não escolheu a atitude certa”, está usando o autor errado pelo motivo errado. Sentido, em Frankl, é algo que se busca em condições materiais reais; o livro é exigência consigo, nunca licença para julgar o outro.

Terceiro, a especificidade clínica. Logoterapia é técnica psicoterapêutica, com formação séria — o que se dá no consultório por um psicólogo formado nessa escola tem indicação, contraindicação, manejo. Nenhuma resenha, e em especial esta, substitui esse trabalho. Leitor em sofrimento psíquico relevante vai a profissional habilitado. Frankl, médico, seria o primeiro a dizer isso.

O incômodo do leitor de Frankl

Há um tipo específico de desconforto que este livro provoca, e ele costuma ser silenciado por leituras motivacionais. Frankl exige, em cada página, que o leitor admita que a piora da situação não retira por completo a responsabilidade pessoal sobre a parte que ainda cabe. Isso é incômodo porque vai contra a corrente cultural mais forte do nosso tempo, na qual a explicação do que vai mal é, primeiro, externa. A externalidade existe. Frankl não nega que ela exista. O que ele faz é, depois de admiti-la, perguntar: e agora, com o pedaço que sobrou da sua agência, o que você vai fazer?

Quem busca consolo na vitimização não vai gostar do livro. Frankl não consola desse jeito. Ele consola pelo outro lado: ao mostrar que o pedaço que sobra de agência — por menor que seja — é exatamente o pedaço pelo qual a vida ainda vale a pena ser vivida. Quem o lê esperando absolvição sai com uma exigência. Quem o lê esperando exigência sai com algo parecido com paz.

A casa que escreve sobre o seu dinheiro precisa desse incômodo. Sem ele, qualquer texto que descreva a assimetria do sistema vira convite a se acomodar nela. Com ele, a descrição do sistema é só a metade do trabalho — a outra metade é o que o leitor faz com a parte que está nas mãos dele. As outras três referências da casa conversam diretamente com isso: Housel descreve por que erramos no comportamento; Buffett descreve como acertar no temperamento; Sagan ensina a duvidar com método. Frankl entra para impedir que essa tríade vire receita, lembrando que a receita não dispensa o sujeito que a aplica.

Sobre a tradução e a edição

Schlupp e Aveline traduzem do alemão e isso pesa a favor — muitas das edições motivacionais que circulam em português são feitas a partir da retradução americana, que tem suas próprias decisões editoriais (foi a edição da Beacon Press, com prefácio de Gordon Allport e posfácio sobre o “tragic optimism”, que projetou o livro nos Estados Unidos). A Vozes preserva o ritmo da prosa alemã de Frankl, que é mais sóbria do que a versão americana sugere. A tradução tem 70 e tantos anos de circulação no Brasil; algumas frases estão consagradas em uma forma que talvez já não fosse a primeira escolha hoje, mas o conjunto se mantém.

Quem prefere começar por uma edição mais recente, há também a edição da Auster (2021), focada em jovens leitores, com cronologia da vida de Frankl e do Holocausto, mais um glossário de logoterapia — útil para quem entra no autor pela primeira vez, embora exista alguma seleção em relação ao texto original. Para um leitor adulto que quer o livro integral, a Vozes resolve.

Veredito

Em Busca de Sentido é o livro mais sério da bússola desta casa, e o que menos pode ser instrumentalizado. Recomendo a leitura sem reserva — e recomendo lê-lo pelo que ele é, não pela versão de cartaz que dele se faz. A primeira parte se lê quase em fôlego único; a segunda exige releitura, porque é onde Frankl decanta o método. Quem quiser entender em uma frase por que ele entra na bússola: porque obriga o leitor a separar o que o sistema fez com ele do que ele fez com o que sobrou. Sem essa separação, finança é folclore. Com ela, finança vira disciplina.

Há uma forma de tornar o exercício concreto e doméstico. Anote, em uma linha só, a queixa mais legítima que você tem sobre o sistema — a tarifa, o juro, o imposto que entendeu como injusto. Embaixo dela, em outra linha, anote o que está, esta semana, ao alcance da sua mão: o aporte que cabe, a renegociação que está adiada, a planilha que falta abrir. A primeira linha continua verdadeira; ela não some. A segunda é, no vocabulário de Frankl, a última liberdade que lhe cabe. Não é pouca coisa, mesmo que pareça. Foi com material desse tipo que homens nas barracas atravessaram a noite.